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Economia espacial e o cada vez mais vasto universo de oportunidades


Economia espacial e o cada vez mais vasto universo de oportunidades

Economia espacial é um conceito muito grande para acreditar que as possibilidades de exploração estagnaram quando o homem pisou na Lua.

Em 1977, quase uma década após pousar na Lua, a NASA lançou ao espaço duas sondas chamadas Voyager. A missão, que recebeu a honrosa alcunha de “Grand Tour”, tinha um objetivo simples: o intercâmbio eterno.

Ambas Voyagers jamais retornarão à Terra: equipadas com dois discos de ouro, reproduzem canções ininterruptamente, como uma mensagem da humanidade para quaisquer formas de vida que estiverem espalhadas pelo universo. 

A NASA mantém ativa em seu site, em tempo real, a distância das sondas em relação ao sol: no fechamento dessa matéria, a Voyager 1 registrava aproximadamente 24 bilhões de quilômetros percorridos, enquanto a Voyager 2 estava próxima da casa dos 20 bilhões de quilômetros.

Na imagem, Sonda Voyager, que leva o intercâmbio eterno da humanidade.
Sonda Voyager, que leva o intercâmbio eterno da humanidade. (Crédito: NASA/JPL Caltech)

Olhe a distância que conseguimos mandar uma mensagem. Uma mensagem para caracterizar a diversidade cultural, natural e industrial do planeta, capitaneada pelo astrofísico Carl Sagan. Um gênio que já não está mais entre nós, mas que fora perpetuado pelo intercâmbio eterno.

As gravações “To the makers of music – all worlds, all times” são uma: “chance de imaginar você mesmo como um alienígena em uma distante galáxia que encontra uma espaçonave em seu jardim. De alguma forma, você se tornará hábil a seguir as instruções que estão ao lado do disco e, com sorte, seu senso auditivo e sua atmosfera planetária vão permitir que ouça o que está nele”, diz um trecho do artigo da BBC que apresenta o conteúdo das Voyagers.

Mozart, Bach e Beethoven regem o poder da epifania humana ao universo. Poder esse que nos permitiu sair da caverna e olhar para as estrelas. Poucos segundos depois na história, compreender o funcionamento dessas estrelas, alcançá-las e enviar uma mensagem que nos caracteriza enquanto sociedade e planeta próspero para evolução acontecer com graciosidade. 

A história da economia espacial tem esse lado lúdico, mas também possui um lado bem pragmático e corporativo. A NASA chegou à Lua em concorrência moral frente ao temido comunismo da União Soviética. Foi alvo de críticas por gastos excessivos dos cofres públicos para a construção de frotas de ônibus espaciais. 

Chega a ser um caso maluco, se for pensar bem: uma agência federal que supervisionou 15 nações para construir uma Estação Espacial Internacional do tamanho de um campo de futebol. 

A NASA começou sua história em 1958 e, desde então, mostra uma história específica de investimentos desproporcionais em um setor que nunca pediu a contrapartida do lucro. Ora usada para discursos ufanistas, ora realmente um agente da transformação da humanidade, o jogo da agência era outro – a Guerra Fria, as tensões geopolíticas, o patriotismo. 

Enquanto o contexto de mundo permitia que isso fosse alimentado, a NASA deteve o poderio. 

Em 1966, no auge da corrida à Lua, o orçamento da agência espacial era de US$ 5,9 bilhões – US$ 44,89 bilhões corrigidos para 2022 – representando 4,4% do orçamento federal total dos EUA. Depois de 1969, no entanto, ano em que Apollo 11 realizou o primeiro pouso lunar, a febre espacial começou a esfriar. A missão havia sido cumprida. 

Chegou ao tempo inevitável, o qual o Congresso dos Estados Unidos começara a flertar com o corte dos intermináveis cheques ​​que permitiam à agência continuar gastando. Hoje, os gastos federais destinados à NASA representam aproximadamente 0,4% do montante total do governo norte-americano.

Esse gap permitiu que a indústria privada entrasse na jogada. O artigo “The most significant industrial revolution in history is underway in space and the U.S. must lead it”, escrito por Tom Vice, CEO da Sierra Space, e veiculado ao Washington Post, apresenta e desenvolve o conceito de comercialização da Low Earth Orbit (LEO), por exemplo.

Segundo o autor, estamos em um ponto de virada para nossa civilização, entrando na Era Orbital. A microgravidade, os níveis de radiação e um estado de quase vácuo fornecem condições específicas e extraordinárias para o desenvolvimento de novos tipos materiais e produtos.

Como exploradores, sempre observaremos as estrelas e nos questionaremos sobre nossa existência, mas como administradores deste planeta, devemos olhar pragmaticamente para as oportunidades de evolução.

A Sierra Space, de Tom Vice, está construindo toda a plataforma e ecossistema para capitalizar o conceito de LEO, reunindo transporte de última geração e sistemas de infraestrutura espacial acessíveis, para naturalizar a presença humana no espaço em baixa órbita.

A Relativity Space, outro exemplo, usa impressão 3D para fazer foguetes reutilizáveis. A empresa diz que suas técnicas podem construir modelos 10 vezes mais rápido do que os métodos tradicionais, possibilitando “acesso ao espaço de maneira mais ágil, frequente e com menor custo”. 

De acordo com o estudo “The potential of microgravity: How companies across sectors can venture into space”, desenvolvido pela McKinsey & Company, as empresas farmacêuticas poderiam obter mais de US$ 4 bilhões em aumento de receita anual ao colaborar com empresas espaciais. Considere que apenas um grande avanço em compostos oncológicos tem o duplo benefício de transformar os cuidados de saúde como os conhecemos hoje.

A NASA, paralelamente à efervescência da exploração espacial, passou a ter que prestar contas e agir com maior responsabilidade. Acabou a história de só gastar dinheiro. O que foi mostrado ao fechamento do ano de 2021, no entanto, foram números impressionantes.

O orçamento da NASA para o ano fiscal de 2021 foi de US$ 23,3 bilhões – e esses gastos, segundo o relatório, geraram um total de US$ 71,2 bilhões em atividades econômicas por todo os Estados Unidos.

Direta ou indiretamente, a agência federal impactou empreiteiros do setor público e privado, fez acordos de pesquisa e desenvolvimento com a academia e empresas nacionais e internacionais, além de apoiar ou criar mais de 350 mil empregos em todo os EUA. 

Foi o programa Artemisque visa trazer os astronautas de volta à Lua nesta década – que teve o desempenho de maior destaque, gerando quase US$ 2,2 bilhões em receita tributária, criando mais de 37 mil empregos e contribuindo com quase US$ 20 bilhões dos US$ 71,2 bilhões do impacto econômico total.

Artemis pode despertar para as novas gerações a inspiração em torno de um grande esforço da humanidade. 

“Nós subimos juntos, de volta à Lua e além”, vociferou Derrol Nail, porta-voz da NASA, logo após a decolagem do modelo SLS, o foguete mais poderoso já construído, em 29 de agosto de 2022.

Na imagem, plataforma de lançamento no momento de decolagem do SLS, do programa Artemis.
Plataforma de lançamento no momento de decolagem do SLS, do programa Artemis. (Crédito: NASA/Ben Smegelsky)

O programa Apollo foi criado em função de uma corrida entre duas nações, mas Artemis foi projetado com base na premissa de que os países ao redor do mundo devem cooperar para criar uma presença sustentável na Lua, como ponto de partida para o resto do espaço.

Para a NASA, não se trata mais sobre fincar bandeiras ou deixar pegadas. Trata-se de estabelecer uma presença duradoura na superfície lunar, capaz de testar a tecnologia necessária para missões mais ambiciosas.

Sob diferentes perspectivas, a economia espacial começa a descobrir o cada vez mais vasto universo de oportunidades. 

O que é economia espacial?

Há uma década, em 2012, o Fórum Espacial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), juntou uma cúpula para desenvolver um conceito de economia que capturasse todo o leque de atividades espaciais. 

Espelhando-se ao modelo da economia digital, foi desenvolvido um conjunto de diretrizes, cujo objetivo era abranger as diferentes dimensões de programas, serviços e agentes do ecossistema espacial. 

O trabalho resultou na primeira edição do “Handbook on Measuring the Space Economy”, publicado em 2012.

“Economia espacial são todas as aplicações e o uso de recursos que criam e fornecem valor e benefícios para os seres humanos durante a exploração, compreensão, gerenciamento e utilização do espaço”.

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

Esse é um ecossistema que inclui todos os agentes públicos e privados envolvidos no desenvolvimento e fornecimento de produtos e serviços relacionados ao espaço, desde pesquisa e desenvolvimento, fabricação e uso de infraestrutura espacial (estações terrestres, veículos de lançamento e satélites), até aplicações habilitadas para o espaço (equipamentos de navegação, telefones via satélite, serviços meteorológicos).

Da década que se passou desde a criação do documento, compreendeu-se que a economia espacial iria atingir um potencial muito além do próprio setor, uma vez que também compreendia os impactos de conhecimentos derivados do espaço na economia e na sociedade. 

Uma questão que passou a pesar na medição do que era exatamente o conceito de “economia espacial” dizia respeito aos bens e serviços, principalmente digitais, que começaram a usar tecnologias desenvolvidas no setor espacial como insumo intermediário. 

Alguns exemplos corriqueiros são os sistemas de geolocalização, que você usa no seu GPS, ou a transmissão via satélite, que leva sinal para sua televisão. Não estamos falando de indústrias que atuam diretamente no segmento, mas que de alguma forma se beneficiam com ele. Configuram, então, como players da economia espacial? 

Segundo a OCDE, todas as atividades que usam os serviços espaciais como bem intermediário devem ser incluídas nas medições da economia.

Quais são os principais setores de atuação dentro da economia espacial? 

O “Annual Report 2021”, da Space Foundation, mostra que a economia espacial atingiu um valor de mercado próximo a casa dos US$ 470 bilhões no último ano. 

Quase mil espaçonaves foram colocadas em órbita nos primeiros seis meses de 2021, um número maior do que os lançamentos dos primeiros 52 anos de exploração do espaço (1957-2009). A inovação tecnológica reduziu significativamente os custos, bem como criou novas capacidades, alimentando um “renascimento espacial”. 

As diferentes aplicações evoluem constantemente à medida que as tecnologias espaciais se entranham nos sistemas e serviços utilizados nas atividades de rotina. Usando definições retiradas pelo “Handbook on Measuring the Space Economy”, produzido pela OCDE, esses são os principais setores de atuação dentro da economia espacial:

  • Comunicações por satélite: desenvolvimento e/ou uso de satélites e subsistemas relacionados ao envio de sinais à Terra, para fins de serviços de telecomunicações fixas ou móveis (voz, dados, Internet e multimídia) e radiodifusão (serviços de TV e rádio, serviços de vídeo);
  • Posicionamento, navegação e cronometragem: desenvolvimento e/ou uso de satélites e subsistemas relacionados para serviços de localização, posicionamento e cronometragem. A navegação é utilizada para o transporte aéreo, marítimo e terrestre, ou a localização de pessoas e veículos. Ele também fornece um tempo de referência universal e um padrão de localização para vários sistemas;
  • Observação da Terra: desenvolvimento e/ou uso de satélites e subsistemas relacionados para medir e monitorar a Terra, incluindo seu clima e meio ambiente;
  • Transporte espacial: desenvolvimento e/ou uso de veículos lançadores e subsistemas relacionados. Isso inclui serviços de lançamento, portos espaciais governamentais e comerciais, turismo espacial, bem como serviços de logística para transporte entre órbitas;
  • Exploração espacial: desenvolvimento e/ou uso de espaçonaves tripuladas e não tripuladas (incluindo estações espaciais, rovers e sondas), para explorar o universo além da atmosfera da Terra (por exemplo, a Lua, outros planetas, asteróides). Incluídos neste setor estão a Estação Espacial Internacional e as atividades relacionadas aos astronautas;
  • Ciência: os vários campos científicos relacionados a voos espaciais ou quaisquer fenômenos que ocorram no espaço, na Terra ou em outros planetas, por exemplo, astrofísica, ciência planetária, ciências da vida relacionadas ao espaço, rastreamento de detritos espaciais, ciência atmosférica e pesquisa climática;
  • Tecnologias espaciais: tecnologias específicas de sistemas espaciais que são usadas em missões, como sistemas nucleares de energia e propulsão elétrica solar;
  • Tecnologias ou componentes que podem habilitar recursos espaciais: Inteligência Artificial e softwares de análise de dados não são tecnologias diretamente espaciais, mas podem levar a novos produtos e serviços relacionados à indústria. 

Outras fontes de pesquisa ainda incluem o setor “Defesa”, o qual distingue as atividades espaciais entre as aplicações civis e as militares. O “Handbook on Measuring the Space Economy”, produzido pela OCDE, no entanto, não faz essa distinção para categorizar os principais setores da economia espacial. Válido de menção.

Quais são os segmentos da economia espacial? 

Existem três segmentos delineados para a economia espacial:

  1. O upstream representa os fundamentos científicos e tecnológicos dos programas espaciais, através de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), fabricação e lançamentos.
  2. O downstream representa operações de infraestrutura espacial e produtos e serviços que dependem diretamente de dados e sinais de satélite para operarem funcionalmente. 
  3. As aplicações derivadas de atividades espaciais representam, por exemplo, os experimentos médicos em condição de microgravidade. O segmento traz uma melhor compreensão de como a economia espacial pode ter aplicações em diferentes indústrias do mercado.
Diagrama com o escopo e atividades de cada segmento da economia espacial, segundo o Handbook on Measuring the Space Economy.
Escopo e atividades de cada segmento da economia espacial. (Crédito: Handbook on Measuring the Space Economy)

#1 – Segmento upstream 

Qualquer programa espacial requer sólidos fundamentos científicos e tecnológicos, que vão desde a pesquisa básica, até a produção total de sistemas espaciais e terrestres. Dentro do escopo do segmento upstream, podemos considerar:

  • Produção científica estimulada por instituições de ensino;
  • Apoio científico e de engenharia, incluindo a prestação de serviços de pesquisa e desenvolvimento, como testes de design e peças para o segmento;
  • Fornecimento de materiais e componentes para sistemas espaciais e terrestres, como cabos, conectores, transistores e semicondutores;
  • Projeto e fabricação de equipamentos eletrônicos e mecânicos, softwares para sistemas espaciais e terrestres, bem como sistemas para orientação de espaçonaves, propulsão, energia e comunicações;
  • Integração e fornecimento de satélites, sistemas orbitais completos e veículos de lançamento, bem como centros de controle e telemetria, rastreamento e estações de comando.

Essas atividades são conduzidas pelo setor governamental, empresas de negócios espaciais e pela comunidade científica em geral. Podemos tangibilizar o segmento pelas lentes do turismo espacial, dos serviços em órbita, da remoção ativa de detritos e da extração de recursos.

#2 – Segmento downstream

À medida que o alcance e a diversidade das aplicações espaciais começaram a ganhar tração na sociedade, o segmento downstream despertou bastante atenção do mercado, sobretudo de investidores e grandes players, como Elon Musk. Dentro do escopo do segmento downstream, podemos considerar:

  • Ligação entre os satélites e as infraestruturas com redes de estações em posições estratégicas. As empresas de operações de satélite podem estar ativas em toda a cadeia de valor;
  • Um número crescente de empresas fornece plataformas ou serviços baseados em computação em nuvem que simplificam o acesso, uso e distribuição de produtos geoespaciais (GIS);
  • Fabricação de hardwares, como chipsets, terminais, equipamentos de serviços globais de navegação por satélite (GNSS), e desenvolvimento de softwares;
  • Oferta Direct-to-home (DTH), em aplicações como televisão, rádio e banda larga;
  • Prestação de serviços de posicionamento, navegação, telemetria, rastreamento, serviços de comando, logística e distribuição;

Starlink, o projeto de internet via satélite da SpaceX, tem o objetivo de trazer internet acessível para todos os cantos do planeta. Até o fim de 2021, a divisão técnica da empresa de Musk já havia lançado mais de 800 satélites Starlink ao espaço.

A SpaceX originalmente apresentou um pedido à Federal Communications Commission (FCC), órgão regulador da área de telecomunicações e radiodifusão dos Estados Unidos, para ter 1 milhão de estações terrestres de suporte. 

Frente ao grande número de candidatos aderindo aos testes beta, a empresa ainda aumentou o sarrafo e alterou seu pedido para ter 5 milhões de estações à sua disposição.

#3 – Aplicações derivadas de atividades espaciais

Aleph Farms é uma empresa que vem experimentando o cultivo de carne em laboratórios no espaço. Seu objetivo é desenvolver técnicas para fornecer um sistema alimentar autossustentável.

A empresa diz que quer entender melhor os efeitos da microgravidade em alguns dos processos envolvidos na formação de tecido muscular em células de vaca para produzir carne.

Existe um belíssimo caso aqui no Brasil. João Adibe, um dos mentores do G4 Educação, quer levar a farmacêutica Cimed para o espaço. Ao momento da redação, sua empresa está envolvida em uma rodada de investimentos avaliada em R$ 300 milhões, com foco em avançar a área de P&D para o desenvolvimento de novos produtos. 

A farmacêutica criou a Cimed X, que, em parceria com a companhia de logística Airvantis e o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), irá viabilizar os experimentos com o objetivo de cristalizar proteínas no espaço.

A primeira etapa será levar a proteína do vírus SARS-Cov-2 ao espaço e testar a absorção de vitaminas por leveduras, simulando a ação do aparelho digestivo humano. Com a pandemia da COVID-19, a empresa viu uma queda de 40% em seu carro-chefe, o Cimegripe. 

Menos gente gripou e mais gente fortaleceu o sistema imunológico com complexos vitamínicos. Ao apostar no potencial do nutriente como combatente de potenciais doenças epidêmicas, em um ambiente cujas doses de microgravidade influenciam no desempenho do experimento, a Cimed inova no segmento de aplicações derivadas de atividades espaciais.

Entrada e concorrência de grandes players acelera progresso do segmento

A NASA carrega consigo o peso de sua história, mas não opera mais sozinha no jogo. Talvez seu grande trunfo seja o poder de comoção, o símbolo da evolução da humanidade. O programa Artemis, com uma certa dose de otimismo, de fato tem o potencial para pavimentar uma nova era da exploração espacial.

Um funcionário de alto escalão da agência espacial relatou à BBC que não só foi estabelecida a meta de levar os humanos de volta à Lua nos próximos anos, como também existem planos para que as pessoas vivam lá. 

O comunicado expressa em alto e bom tom as ousadas pretensões que a NASA tem para seu programa Artemis.

Embora o alvoroço seja grande, o que se desenha são players como SpaceX, de Elon Musk, Blue Origin, de Jeff Bezos, e Virgin Galactic, de Richard Branson, acelerando o progresso de um segmento ritmado há décadas por um único império. 

Em poucas palavras, os objetivos da SpaceX são: foguetes reutilizáveis, lançamentos cada vez mais frequentes, cargueiros espaciais, uma rede mundial de internet e, a tão almejada, colonização de Marte.

Elon Musk entendeu que fazer uma oferta mais barata seria fundamental para conseguir entrar no mercado e se manter operando. Também compreendeu que as empresas do segmento até então não estavam preocupadas em concorrer entre si – lançar um foguete era caro, mas quem contratava e custeava toda a operação eram os governos.

O plano da SpaceX sempre foi reduzir o preço de um foguete a uma fração do que era cobrado. O valor para construir a parte dura de uma espaçonave – carenagem, motor e sistemas eletrônicos, por exemplo – correspondia a cerca de 70% de um lançamento.

Os 30% restantes estavam relacionados ao valor do combustível e componentes que ainda não aprendemos a reutilizar. Se Musk encontrasse uma forma de reaproveitar estes 70% em todos os lançamentos, o preço despencaria.

Talvez essa seja a fagulha que marque o início da próxima geração da exploração espacial: o desenvolvimento da tecnologia capaz de executar pousos controlados, trazer foguetes de volta à terra e torná-los reutilizáveis. 

O primeiro pouso bem-sucedido da SpaceX aconteceu em dezembro de 2015. Um marco na história.

Reprodução de pouso controlado de foguetes SpaceX, uma revolução para a exploração espacial.
Pouso controlado de foguetes SpaceX, uma revolução para a exploração espacial. (Crédito: Reprodução)

Não é necessário destruir um avião toda vez que ele voa; agora não é mais necessário destruir um foguete toda vez que ele voa. Uma lógica simples, mas que só foi quebrada agora. Desde então, voos têm se tornado rotina. A SpaceX barateou a viagem ao espaço.

“Meu objetivo é tornar a humanidade uma espécie multiplanetária”. 

Elon Musk, fundador e diretor executivo da Space X

Todas as decisões e passos dados pela companhia até hoje convergem, entretanto, ao momento em que o homem pisará no solo do Planeta Vermelho. Desde o barateamento e reuso de foguetes, até a visão mais holística de grandes embarcações e como a colonização será feita. Marte é o objetivo de Musk – mesmo que por muitas outras perspectivas, contraditório.

Na outra ponta, também em poucas palavras, os objetivos da Virgin Galactic e da Blue Origin são: promover o turismo espacial e permitir que civis cheguem ao espaço.

O fundador da Virgin Galactic, Richard Branson, tornou-se o primeiro bilionário a visitar o espaço, em 11 de julho de 2021, poucos dias antes de Jeff Bezos, fundador da Amazon e da Blue Origin, que atingiu o marco em 20 de julho de 2021.

A Blue Origin possui o programa “Space for Humanity“, cujo objetivo é justamente permitir que pessoas comuns experimentem um gostinho do espaço. Jeff Bezos foi o figurão que estreou as viagens da companhia, em um voo de 10 minutos de duração, a bordo do foguete New Shepard

A cápsula, impulsionada por um lançador, atingiu uma altitude de mais de 100 quilômetros, antes de descer de paraquedas e pousar no deserto. Os passageiros puderam experimentar a sensação de gravidade zero, além de terem uma visão ampla da curvatura da Terra através de grandes janelas. 

Poucos meses depois, em outubro de 2021, o ator William Shatner, eterno Capitão Kirk, da série “Star Trek“, teve a chance de imitar a arte que performou durante toda sua vida. Kirk viveu algumas das aventuras espaciais mais memoráveis da cultura pop. Shatner viveu uma das aventuras espaciais mais memoráveis da história.

No fim daquele ano, a Blue Origin ainda levaria em uma expedição Laura Shepard, filha de Alan Shepard, que 60 anos antes se tornaria o primeiro norte-americano a ir ao espaço.

Em julho de 2022, Victor Hespanha se tornou o segundo brasileiro a viajar ao espaço. Ele foi sorteado após comprar um NFT e participou de uma missão a bordo de um novo modelo New Shepard

Com players explorando cada ponta dessa vastidão de oportunidades, o ecossistema espacial se forma como discurso de progresso da humanidade, não agarrado meramente às cores de uma bandeira geopolítica. Não é mais sobre uma corrida; é sobre desenvolvimento tecnológico perene.

A parte lúdica das estrelas sempre esteve presente em nossas histórias e continuará redigindo cada linha delas. Quem dirá que alguns dos primeiros tripulantes civis foram nomes como o próprio ator do Capitão Kirk, um aventureiro espacial da ficção, e a filha do homem que chegou de fato ao espaço lá atrás, na década de 1960? Ou que o segundo brasileiro a viajar ao espaço foi um civil?

Espaço é um conceito muito grande para acreditar que as possibilidades de exploração estagnaram

Um tema que empolga, principalmente pelas oportunidades. Essa não é mais uma questão de confronto, para ver quem chega antes até determinado resultado. 

Falamos de um mercado que começa a se desenvolver para diversas indústrias adjacentes, com faculdades científicas e técnicas capazes de transformar nossos sonhos estelares em planejamentos factíveis.

O que não pode ser inserido em uma planilha, é claro, são os valores intangíveis que a exploração espacial paga. É impossível colocar um preço nas imagens feitas pelo Telescópio Espacial James Webb, que recorrentemente nos inspira com a complexidade magnífica do desconhecido.

Imagem capturada pelo Telescópio Espacial James Webb, localizada a cerca de 161.000 anos-luz de distância. Refere-se a Nebulosa da Tarântula, uma região massiva de formação de estrelas.
Localizada a cerca de 161.000 anos-luz de distância, a Nebulosa da Tarântula é uma região massiva de formação de estrelas. (Crédito: Reprodução James Webb)

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