Crescer um negócio nunca foi apenas sobre vender mais. Crescer exige decidir melhor, principalmente quando o assunto é dinheiro. Como financiar o crescimento? Quando fazer captação de recursos? De quem? Em quais condições? E, talvez, a pergunta mais negligenciada: para quê exatamente esse capital será usado?
Essas questões estiveram no centro da conversa que tive no Papo de Gestão com o Leandro Fariello engenheiro de formação, com passagem por grandes indústrias como Rhodia, Suzano e Braskem, ex-CFO da Tembici e hoje sócio da Graphin Partners.
Mais do que falar de finanças, o papo conectou três mundos que raramente conversam bem entre si: corporate, startups e a realidade do empresário brasileiro. O resultado foi uma aula prática sobre como pensar crescimento com mais método e menos improviso e você tem acesso à conversa na íntegra nos canais do G4 Podcasts no YouTube e no Spotify.
Carreira não linear e decisões mais inteligentes
Uma das coisas que mais me chamou atenção na trajetória do Leandro foi a forma como ele enxerga empresas: como sistemas.
A transição de engenharia para finanças não foi uma ruptura, mas uma evolução natural. Antes de mergulhar em números, ele passou por áreas comerciais, desenvolvimento de produto e operações, criando uma visão híbrida, que conecta estratégia, execução e dinheiro.
Na prática, executivos e empreendedores com esse perfil generalista tendem a tomar decisões financeiras melhores, porque entendem o impacto real do dinheiro no negócio e não apenas o número em si.
Isso nos leva à primeira provocação: você, enquanto gestor, entende finanças como um departamento ou como um sistema que sustenta toda a empresa?
Quando o modelo financeiro tradicional entra em choque
No mundo industrial, valuation costuma ser um exercício relativamente objetivo: fluxo de caixa descontado, premissas claras, horizonte longo. Ao entrar no ecossistema de startups, Leandro se deparou com outro universo.
Múltiplos de receita, apostas em crescimento acelerado, margens futuras ainda incertas. Não é que um modelo esteja certo e o outro errado — o problema surge quando se usa o modelo errado para o contexto errado.
Esse choque foi um gatilho importante para entender o empreendedorismo na prática. Em muitos casos, os modelos tradicionais falham. Em outros, eles são ainda mais necessários para evitar decisões ruins travestidas de ousadia.
Startups não quebram por falta de ideia
Quando falamos de startups, é comum romantizar o caos, mas a experiência do Leandro como CFO da Tembici mostra outra realidade: o caos sem método cobra um preço alto.
Startups operam em modo sobrevivência: pouca estrutura, alta velocidade e muita incerteza. O diferencial competitivo surge quando alguém consegue trazer processo, disciplina financeira e clareza sem prejudicar a agilidade.
Não é a qualidade do produto ou as condições do mercado que quebram empresas, mas a falta de método financeiro.
Crescimento exige mais de uma opção de capital
Talvez a tese central do episódio seja esta: a pior situação para um empresário é ter apenas uma opção de capital.
Boas decisões nascem de comparação. De repertório.
Quando você só tem uma alternativa — um banco, um investidor, uma linha — você não decide, você aceita.
E aqui entra um ponto crucial: captação não é sinônimo de equity. Dívida bem estruturada pode acelerar crescimento sem diluir sócios, desde que esteja alinhada ao projeto certo.
Criar alternativas financeiras não é detalhe técnico. É vantagem estratégica.
Dinheiro sem destino é risco, não solução
Antes de captar, todo empresário deveria responder a uma pergunta básica: para que exatamente esse dinheiro será usado?
Um mesmo plano de crescimento pode envolver:
- Compra de equipamentos;
- Capital de giro;
- Expansão geográfica;
- Tecnologia e P&D.
Cada uso exige um tipo diferente de capital. O erro clássico é financiar investimentos de longo prazo com capital de giro caro e curto. Isso cria uma pressão de caixa desnecessária — e, muitas vezes, invisível no início.
Dinheiro não resolve problema de estratégia. Ele amplifica.
Tipos de capital: nem tudo é banco ou investidor
Durante a conversa, organizamos o tema em camadas claras:
- Equity: traz capital, mas também governança, novos sócios e complexidade.
- Dívida tradicional: rápida e acessível, porém cara e pouco flexível.
- Dívida estruturada: desenhada a partir do fluxo de caixa do projeto.
- Capital incentivado e fomento: BNDES, Finep, bancos regionais, fundos estaduais, e até recursos não reembolsáveis para inovação.
O dinheiro existe. O problema é não saber onde procurar — ou nem saber que essas opções existem.
Business Plan não é burocracia, é sobrevivência
Um dado que apareceu na conversa é alarmante: a maioria das empresas em recuperação judicial ou falência não tinha modelo financeiro estruturado.
Sem Business Plan, o empresário não sabe:
- Se consegue pagar a dívida;
- Quando o caixa vira positivo;
- Quanto pode distribuir;
- Qual risco está assumindo.
Captar dinheiro sem modelo financeiro é navegar sem bússola: o movimento existe, mas a direção é incerta.
Dívida não é só taxa de juros
Outro erro comum é comparar dívidas apenas pela taxa. Aqui estão os quatro fatores que realmente importam:
- Taxa;
- Carência;
- Prazo;
- Garantias.
Uma dívida aparentemente mais cara pode ser muito melhor se tiver carência e prazo adequados ao projeto. Focar só no CDI é uma visão raza e, muitas vezes, cara no longo prazo.
Garantias vão além de imóveis
Muitos empresários limitam suas opções porque acham que só imóveis servem como garantia, o que não é verdade.
Recebíveis, contratos B2B, fluxos recorrentes, home equity e recebíveis de cartão ampliam significativamente o acesso ao crédito. Para quem empresta, a lógica é simples: capacidade de pagamento.
As decisões que você toma hoje moldam o líder que você será
Um ponto que atravessa todo o episódio é este: o maior problema do empresário médio não é falta de dinheiro é não enxergar as próprias lacunas de conhecimento.
Ele pergunta no lugar errado, recebe respostas incompletas e toma decisões que estão longe do ideal. Educação financeira aplicada, assessorias especializadas e plataformas certas deixam de ser custo e passam a ser vantagem competitiva.
No fim, liderança e gestão se encontram aqui: decidir com clareza, método e responsabilidade. Crescer não é sobre coragem cega. É sobre escolhas bem informadas.
Se esse conteúdo te fez repensar como você toma decisões de capital, ótimo. Agora vale olhar para o seu negócio e se perguntar: está faltando dinheiro ou método? Essa resposta muda o jogo.