No G4 Frontier, compartilhei alguns dos principais insights que trouxe da NRF Retail’s Big Show, em Nova York. Entre conversas, palestras e análises sobre o varejo global, um ponto ficou muito claro para mim: estamos vivendo uma bolha — mas não é a mesma bolha dos anos 90.
Quando comparo a bolha da internet com a bolha da inteligência artificial, percebo uma diferença estrutural que muda completamente a forma de empreender hoje. À primeira vista, ambas parecem semelhantes: muito investimento, crescimento acelerado e promessas exponenciais. No entanto, na essência, são movimentos opostos. É essa distinção que define quem transforma tendência em vantagem competitiva e quem apenas acompanha o ruído.
A bolha da internet: a corrida pela informação
Nos anos 90, vivemos a bolha da informação. A internet consolidou a ideia de que informação era o novo ouro, e a corrida passou a ser por audiência, cliques e dados. Fundos de investimento e bancos despejaram capital em empresas de tecnologia que cresciam rapidamente e queimavam caixa na mesma velocidade. A lógica predominante era crescer primeiro e descobrir a rentabilidade depois.
As empresas de tecnologia operavam com estruturas gigantescas, sustentadas pela promessa de crescimento exponencial. O Facebook chegou a ultrapassar a marca de 150 mil funcionários em determinado momento. No Brasil, o Buscapé também manteve milhares de colaboradores em seu auge. No e-commerce, centros de distribuição robustos, estoques massivos e investimentos pesados em infraestrutura eram vistos como sinal de força competitiva.
O problema é que, em muitos casos, essas empresas eram ricas em valuation, mas frágeis em geração de caixa. Eram negócios grandes no discurso, mas com fundamentos financeiros questionáveis. Cresciam apoiados em capital abundante, enquanto a eficiência ficava em segundo plano.
A bolha da IA: a era da produtividade exponencial
O que estamos vivendo agora é diferente em sua lógica estrutural. A bolha da inteligência artificial nasce em um cenário no qual eficiência e geração de caixa são protagonistas. Empresas alcançam valuations milionárias operando com times enxutos e estruturas leves, porque a tecnologia permite produzir mais com menos.
A IA não infla estruturas; ela elimina ineficiências. Em vez de ampliar quadros e expandir custos fixos, ela potencializa a capacidade produtiva das pessoas e reduz fricções operacionais.
Um erro recorrente que observo é tratar IA como serviço. Não existe “o cara da IA” dentro da empresa, assim como não existe “o cara do Excel” ou “o cara do inglês”. IA é habilidade. É competência transversal que precisa atravessar toda a organização, da estratégia à operação.
Muitas empresas ainda enxergam a inteligência artificial como uma tecnologia a ser contratada, como se fosse um novo software plugado na rotina. Contratam soluções pontuais, mas não constroem uma cultura orientada por IA. Ao fazer isso, capturam apenas ganhos incrementais, quando poderiam estar redesenhando processos inteiros com base em produtividade exponencial.
Leia também: Como a inteligência artificial está redefinindo a tomada de decisão e criando um novo tipo de liderança empresarial

Da era da informação para a era da execução
Se a internet democratizou a informação, a inteligência artificial está acelerando a execução. Hoje, o diferencial competitivo não é mais ter acesso a dados, porque o acesso se tornou amplo. A vantagem está na capacidade de transformar informação em ação com velocidade e consistência.
A IA comprime ciclos decisórios, reduz etapas operacionais e elimina tarefas repetitivas, liberando tempo para análise estratégica. O que está acontecendo não é apenas uma revolução tecnológica, mas uma verdadeira distorção do tempo produtivo. Atividades que antes levavam dias podem ser realizadas em horas, e análises que exigiam equipes inteiras passam a ser estruturadas com apoio de sistemas inteligentes.
Independentemente do porte ou da região do negócio, vivemos a era da produtividade exponencial. Pequenas empresas podem operar com eficiência comparável à de grandes estruturas, enquanto grandes organizações podem se tornar mais leves, ágeis e rentáveis.
O risco não é a bolha. É a irrelevância.
Toda transformação tecnológica gera exageros, valuations inflados e narrativas otimistas demais. Isso faz parte do ciclo. A diferença é que, enquanto a bolha da internet inflava estruturas, a bolha da IA comprime ineficiências e acelera geração de resultado.
Empresários que ignoraram a internet perderam relevância competitiva. Os que ignorarem a inteligência artificial correm o risco de perder produtividade, margem e capacidade de execução.
No G4 Frontier, deixei uma provocação clara: o negócio está usando IA para gerar caixa e eficiência real ou apenas para parecer moderno? A resposta a essa pergunta define quem constrói vantagem sustentável e quem apenas acompanha a tendência.
No fim, essa nova revolução não é sobre tecnologia. É sobre produtividade.