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Trabalhar 4 dias por semana: será que a discussão é válida no Brasil?

Trabalhar 4 dias por semana pode significar um aumento na produtividade através de um descanso mais prolongado? Para os brasileiros, como essa relação entre trabalhar menos e produzir mais ainda vem sendo compreendida?

A semana de 4 dias de trabalho vem sendo discutida em vários lugares do mundo. Nesse sistema, o trabalhador tem uma redução da carga horária, mantendo o seu salário e objetivando manter ou até mesmo aumentar a sua produção.

Alguns países estão, inclusive, realizando testes para verificar a eficácia ou não dessa nova metodologia de trabalho. Na Escócia e no País de Gales, por exemplo, a experiência vem apresentando custos elevados. O governo está repassando às empresas do projeto o equivalente a 10 milhões de libras esterlinas.

Já na Suécia, o estudo vem dividindo opiniões e os resultados estão se mostrando ambivalentes. Na Nova Zelândia, a Unilever, multinacional de alimentos e bens de consumo, está realizando testes com a semana de 4 dias. Os resultados ainda não foram apresentados, porém, caso o saldo seja positivo, a ideia é que a companhia estenda essa possibilidade para outros países.

Mas, afinal, qual a origem da semana de trabalho como a conhecemos hoje? Onde surgiu e porque trabalhar determinado número de dias? Por que existem os períodos úteis e os finais de semana?  Essas questões serão abordadas a seguir.

A origem da semana de trabalho de 5 dias

Durante a Revolução Industrial, os operários trabalhavam de 14 a 16 horas semanais, de segunda a segunda. As folgas só eram possíveis por motivos religiosos e não havia pagamentos pelos dias não trabalhados.

A rotina era extremamente pesada. Os horários de trabalho eram desumanos e as pessoas praticamente não tinham tempo para viver e se divertir.

Após esse período, e já esgotados desse modo de vida, os operários ingleses iniciaram suas lutas por direitos trabalhistas mais justos.

Assim, por motivos religiosos, ficou acordado que os sábados e domingos seriam os dias de repouso semanal. Isso, porque algumas culturas guardam o sétimo dia da semana e outras, como a cristã, por exemplo, utilizam o primeiro dia para adorar a Deus.

Dessa forma, os direitos trabalhistas começaram a se estender por grande parte do mundo.  Nos Estados Unidos, em 1926, Henry Ford, das indústrias Ford, decidiu implementar o regime de trabalho de 5 dias, com 8 horas de trabalho em cada, seguido de 2 de folga. 

(Na imagem: Trabalhadores da indústria Ford)
(Crédito: Ford)

Ao adotar esse sistema, ele percebeu que os empregados produziam mais e melhor, pois podiam dormir mais, descansar e ter novas oportunidades de lazer.

Criou-se, então, um padrão de dias de trabalho e de descanso com determinada carga horária de trabalho e uma produtividade esperada. Saber os horários de produção (dias da semana e horas ativas) levou a um aumento na previsibilidade, facilitando o planejamento e melhorando a gestão da companhia.

Essa mudança de mentalidade contribuiu para que as pessoas trabalhassem enquanto eram produtivas, podendo ter o final de semana para recuperarem as energias e voltarem descansadas para o trabalho.

Como um reflexo disso, observa-se que, com o passar dos tempos, a carga horária de trabalho foi diminuindo. Nos EUA, ela passou de 70 horas semanais, no final do século XVIII, para 60 ao fim do século XIX. Depois, de 50 horas no início do século XX, para 40 horas após as mudanças instauradas por Ford.

Em meio a todas essas mudanças, chegou-se ao formato atual, em que a semana é dividida em dias úteis, de segunda a sexta e finais de semana (sábados e domingos).

A questão da semana de trabalho de 4 dias

Todo esse movimento trabalhista, mencionado anteriormente, surgiu em um contexto muito diferente do momento atual, no qual a produção dependia diretamente das horas trabalhadas e do trabalho braçal dos funcionários.

Hoje, com o avanço da tecnologia e as mudanças na sociedade, cada vez mais passamos a desenvolver trabalhos que exigem mais imaginação e criatividade, levando ao questionamento acerca da semana de 4 dias de trabalho.

A pandemia também acirrou essa discussão, pois ser um gestor mais efetivo para os seus negócios se traduziu em pensar mudanças e alternativas para o desenvolvimento da máxima performance do capital humano.

A ideia é que as pessoas possam ter um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, com aumento do seu bem-estar, sem que ocorram prejuízos financeiros aos funcionários e sem que haja perda de produtividade.

Dentro dessa perspectiva de 4 dias de trabalho, existem diferentes modelos que vão desde a eliminação de um dia, reduzindo as horas trabalhadas e recebendo o mesmo salário, até modelos mais intensos, no qual se divide a carga horária total nos 4 dias, com turnos mais longos e cansativos.

Obviamente, o primeiro cenário é o modelo ideal, já que reúne em um tempo de trabalho reduzido, um maior descanso por parte dos trabalhadores e uma melhor produção, resultando consequentemente em uma eficiência maior. No entanto, a prática demonstra que a questão não é assim tão simples.

Ter uma semana de 4 dias de trabalho pode ter como benefício mais tempo de descanso e recuperação, permitindo que as pessoas se cuidem mais, descansem e exerçam a criatividade, porém isso só faz sentido quando os 4 dias trabalhados forem realmente produtivos e não gerem o stress da sobrecarga e pressão para entrega de resultados.

E esse é o ponto crucial do problema: conciliar produtividade e qualidade de vida.

Dependendo da cultura e da mentalidade dos trabalhadores, isso pode até ser uma tarefa possível, mas vejamos como o Brasil se encaixa nesse contexto.

A jornada de trabalho no cenário brasileiro

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 e a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) são os órgãos regulamentadores da jornada de trabalho. Nelas está estipulado que a carga horária do trabalhador brasileiro deve ser de no máximo 44 horas semanais (reduzindo 4 horas da jornada anterior de 48) – uma média de 8 horas diárias.

Contudo, de acordo com pesquisas apresentadas no Fórum Econômico Mundial em 2018, a produtividade dos trabalhadores brasileiros é baixa e vem caindo nas últimas duas décadas, como se pode observar através do gráfico abaixo:

(Na imagem: Fator de produtividade dos trabalhadores brasileiros entre 1997 e 2016)
(Crédito: World Economic Forum, 2017)

Além dessa queda na produtividade, um outro gráfico nos mostra que a médias das horas semanais trabalhadas vem, há muito tempo, em constante declínio, independente do setor de produção:

(Na imagem: Média das horas de trabalho semanal dos brasileiros entre 1992 e 2012)
(Crédito: World Journal of Agricultural Research)

Com base na análise desses dados, o brasileiro tem trabalhado cada vez menos horas por semana com uma produtividade abaixo do esperado, levando a uma menor produção por hora trabalhada.

O triste fato é que as estatísticas demonstram que, no Brasil, as pessoas não conseguem ser realmente produtivas. A maior parte dos trabalhadores passa horas e horas dentro das empresas, mas, esse tempo, em muitas das vezes, não é dedicado ao trabalho que deveria ser efetivamente realizado. Faça essa breve autoavaliação:

“Por quantas horas na sua última semana você foi realmente produtivo? Em quantas você foi 80% do que consegue? E em quantas você estava na verdade descansando ou se recuperando, só de corpo presente no trabalho?”

Ao refletir sobre essas questões, verifica-se que em nosso país, infelizmente, ainda há uma grande dificuldade na administração de rotinas. Falta uma melhor gestão de tempo para otimizar a vida pessoal e profissional. Como consequência, confunde-se trabalhar muitas horas com ser muito produtivo.

Em meio a essa realidade, como pensar a semana de 4 dias de trabalho no Brasil? Será que os brasileiros estão preparados para essa mudança?

Considerações finais: pontos de atenção e reflexão sobre o tema

Ao trazer para o contexto brasileiro a discussão sobre trabalhar 4 dias por semana, é preciso retomar alguns pontos discutidos anteriormente.

Afinal, se mesmo com a redução da jornada semanal, a produtividade cai ao invés de aumentar, como foi visto através dos gráficos, qual seria o resultado esperado se tirarmos mais 8 horas semanais de trabalho?

Não defendo o aumento da carga horária do trabalhador, nem que haja um acréscimo nos dias trabalhados, mas o fato é que hoje está acontecendo em larga escala uma destruição massiva de competitividade e valor.

Ao invés de se preocuparem com as horas trabalhadas, tanto empregadores quanto empregados, deveriam se preocupar mais em saber se os resultados estão sendo ou não entregues.

A discussão deveria girar em torno de como aumentar a produtividade dos brasileiros para fazer com que cada hora trabalhada faça a diferença e não discutir sobre a redução da jornada de trabalho.

Dito isto, acredito que, pelo menos por enquanto, a mentalidade brasileira ainda não está totalmente preparada para adotar tamanha mudança. Esse, a meu ver, não é o momento ideal para adotar a 4-day workweek.

O que os brasileiros querem, na verdade, é reduzir o número de dias trabalhados e consequentemente, trabalhar menos, pois se o foco fosse realmente descansar mais para aumentar a produtividade, esse processo já poderia ter sido iniciado à medida que as pessoas produzissem efetivamente nas horas atuais de trabalho.

Além disso, essa discussão não surgiu aqui no Brasil. Ela tem origem nos Estados Unidos, onde o nível de produtividade por hora trabalhada é outro e onde a realidade do mercado é bem diferente. Nem tudo que se encaixa em um determinado contexto pode ser generalizado e expandido aos demais.

Vejamos o caso do trabalho remoto, nem todas as profissões podem se adequar a ele, como profissionais da saúde e funcionários da planta industrial, por exemplo.

O mesmo se aplica a semana de 4 dias de trabalho. Não é pelo fato de alguns países estarem adotando esse modelo e tendo algumas experiências positivas, que ele vai atender a todas as demandas e mercados.

Cada situação precisa ser pensada e analisada dentro de seus contextos e, no caso do Brasil, especificamente, precisamos primeiro otimizar a produtividade para aumentar os resultados e só depois pensar numa possível possibilidade de redução dos dias trabalhados.

Não faz sentido, em uma sociedade guiada por dados, adotar o processo inverso: trabalhar menos horas e torcer para que a produtividade aumente. Ver o que vai dar, raramente traz retornos positivos.

Dito isto, se você quer encontrar maneiras de melhorar a produtividade e os resultados da sua empresa, vencendo os desafios que a farão crescer, o G4 Traction é a imersão ideal para estruturar o seu negócio rumo a um crescimento acelerado e escalável.  Afinal, aprender a sair do operacional e olhar para o estratégico é a chave para levar a sua empresa ao próximo nível.

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