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Super-apps: a evolução dos aplicativos

No dia 29 de novembro, um dos CEOs mais midiáticos da atualidade (ao menos na América do Norte) deixou sua posição de liderança. O nome em questão: Jack Dorsey, do Twitter. O curioso foi que, na madrugada do dia anterior, Dorsey escreveu um tweet onde declarou, de forma simples, seu amor pela rede social que co-fundou em 2006. 

Essa saída, no entanto, já era esperada (e até mesmo desejada) por parte de outros executivos e acionistas da empresa. No ano passado, Elliot Management, um dos maiores investidores do Twitter, preocupado pela performance da empresa, tentou “forçar” a saída de Dorsey. 

Em fevereiro deste ano, o empreendedor, autor e professor universitário Scott Galloway, em um vídeo no seu canal “The Prof G Show – Scott Galloway”, no YouTube, disse que o hoje ex-CEO do Twitter, seria deposto no final do ano de sua antiga posição como líder da plataforma social de notícias em tempo real. 

O próprio Galloway, em 2019, escreveu uma carta ao chairman do Twitter dizendo que Dorsey deveria ser substituído como CEO, uma vez que Dorsey dedicava uma fatia considerável do seu tempo (90%) atuando como CEO de uma outra empresa (a Square) e, naquele momento, planejava passar metade do ano em outro continente.

Dito isso, vale que ressaltar que, durante o período em que Dorsey retomou seu posto como CEO (2015) e o dia que ele renunciou (novamente) a posição, as ações do Twitter subiram 33% –Dorsey exerceu a mesma função entre 2006 e 2008. Para efeito comparativo, as ações do Facebook e do Google, no mesmo período de 6 anos, subiram 283% e 447%, respectivamente.

Segundo Galloway, um novo cenário está previsto para o Twitter em 2022, um cenário onde ele será adquirido por outra empresa, provavelmente alguma startup focada em finanças (por exemplo, PayPal ou Stripe) ou pelo próprio Dorsey através da Square (hoje renomeada como Block).

A razão por trás disso é um conceito que possivelmente teremos cada vez mais presente: super-apps, ou, super aplicativos.

Dado curioso: Galloway também é conhecido por antecipar certos “movimentos” por parte das grandes empresas. Em 2017, ele previu a aquisição da Whole Foods pela Amazon um mês antes do negócio ser concretizado e anunciado.

Leia também: O que faz um CEO: 12 atribuições fundamentais para 2022

Super-apps: o que são

Imagine que você quer assistir a um show do Coldplay em São Paulo em março de 2022 com alguns amigos.

Todo o processo, desde a compra dos ingressos até a chegada no estádio, exigirá que você passe por alguns aplicativos: coordenar tudo pelo WhatsApp, comprar os ingressos no Eventim e acertar as contas com seus amigos através do Pix. Agora, imagine se tudo isso pudesse ser feito em um só aplicativo, um super-app?

Super-apps oferecem uma gama de serviços de internet dentro de uma única plataforma. A própria Block, de Dorsey, já possui diversos serviços dentro sua plataforma como, por exemplo:

  • Serviços de pagamentos peer-to-peer (traduzido como, de colega para colega) com o CashApp;
  • Cripto e negociação de ações (também pela CashApp);
  • Crédito (AfterPay);
  • Delivery de comida (Caviar);
  • Streaming de música (Tidal) e;
  • O core da empresa, a Square, plataforma de pagamentos e transações financeiras.
O novo logo da antes conhecida como Square, mas agora chamada de Block e considerada com um dos futuros super-apps
(Na imagem: o logo da Block, antes conhecida como Square, fundada por Jack Dorse e dona da Cash App)
(Crédito: The Verge / Block)

Dito isso, incorporar uma rede social como o Twitter em sua plataforma será um passo lógico para que a Block se torne o primeiro super-app dos Estados Unidos.

Por outro lado, apesar de que o país ainda não possua super-apps, a competição a nível global está começando a ficar aquecidanesse mercado. Na India, dois super-apps já marcam presença: o Paytm e o PhonePe (empresa da Flipkart/Walmart).

No entanto, a ideia do super-app ganhou popularidade pela primeira vez na China com o WeChat, o aplicativo de mensagens que essencialmente atua com uma plataforma para facilitar a vida online no país mais populoso do mundo.

O WeChat é possivelmente o software mais usado do planeta. Nele, você pode marcar um encontro, chamar um táxi, pagar serviços públicos e até mesmo se divorciar. O comércio feito por meio de mini-aplicativos que o WeChat permite que outros desenvolvedores criem em sua plataforma atingiu a marca de US$240 bilhões em 2020, mais do que o dobro do ano anterior.

Além desses, outros nomes no segmento de super-apps vem se destacando nos últimos meses, além de empresas de tecnologia/internet que já se movimentam para não ficar muito atrás nessa “competição”:

  • A ByteDance, empresa chinesa de tecnologia dona do TikTok, investiu na iMile, um serviço de entrega que conecta, primordialmente, E-commerces chineses com consumidores no Oriente Médio;
  • No dia 02/12, a Grab, empresa singapuriana de transporte, delivery de comidas e pagamentos digitais, fez o seu IPO via SPAC em um negócio valorado em US$40 bilhões;
  • Com um valuation de US$20 bilhões, o IPO do super-app indiano Paytm, foi a maior listagem pública na história do país. 

De acordo com Galloway, o mercado de super-apps é o “trono” do mundo digital, uma vez que super-apps vivem nos dispositivos móveis e, em muitos países, sobretudo em mercados emergentes, esses dispositivos “são” a internet.

Médio de horas que usuários passam por dia em seus dispositivos móveis (Q3, 2021)
(Na imagem: média de horas diárias que usuários passam em seus dispositivos móveis no terceiro trimestre de 2021)
(Crédito: App Annie)

No longo prazo, entretanto, uma plataforma que atende a todos os aspectos da experiência do consumidor, em qualquer mercado, será uma das empresas mais valiosas nesse mercado específico. Dito isso, é possível dizer que companhia que estabelecer a liderança de super-apps nos Estados Unidos será, quiçá, a empresa mais valiosa da história.

Super-apps: como alcançar esse status

Um aplicativo atinge um “super” status quando reúne uma massa crítica de serviços, tornando-os tão fáceis de alternar que, mesmo que não sejam tão bons quanto aplicativos de uso único, o super-app se torna o sistema operacional da sua vida digital. Quanto mais serviços centralizados em um só lugar, menos razão para sair.

Dito isso, um super-app pode começar pequeno: 

  • O WeChat começou somente com mensagens, assim como o WhatsApp;
  • O Gojek, da Indonésia, começou como serviço de solicitação de motoristas;
  • A Paytm originalmente destinava-se à compra de minutos pré-pagos para celular.

Eventualmente, todos foram além de seu nicho e se tornaram empresas dominantes em vários segmentos. A economia dos super-apps é poderosa e, segundo Galloway, construir um super-app nos EUA é o imperativo estratégico da próxima década, podendo resultar na primeira empresa que alcance um valor de mercado de US$10 trilhões.

O desafio no Ocidente

No ocidente, no entanto, existe um grande problema para as empresas que buscam replicar o modelo asiático: elas terão que superar a Apple e o Google, os quase hegemônicos provedores de sistema operacional móvel, que investiram e investem bilhões de dólares para justamente evitar que um super-app insira-se entre os consumidores e seus sistemas operacionais (iOS e Android).

Além disso, a transformação radical da Apple sob o comando de Tim Cook foi um projeto de uma década para estender o ecossistema da empresa com o propósito de anular qualquer possibilidade de que um super-app fique acima do iOS. 

Logo, isso explica a razão pela qual a Apple agora oferece sistemas de pagamento de crédito e débito, o motivo pelo qual usuários podem utilizar seu ID Apple para entrar em uma grande variedade de serviços de terceiros e a motivação pela qual Cook está gastando centenas de milhões de dólares em produções originais de séries, filmes e documentários no Apple TV+.

Neste caso, quem seriam os maiores competidores da Apple e Google? Atualmente, outros gigantes de tecnologia, certamente liderados pela Amazon e Meta/Facebook, empresas que pretendem dar um salto construindo versões mais pretensiosas de “voice technology“, como no caso Amazon com a Alexa, e a realidade virtual no caso da Meta/Facebook.

De acordo com Galloway, o provável epicentro para aspirantes a super-apps são as fintechs, especificamente as de pagamentos como PayPal, dono da Venmo, e a Block, dona da Square.

As fintech que conseguem escala possuem uma valiosa infraestrutura, moeda de aquisição na forma de ações superaquecidas, além de confiança. As fintechs, além de receberem relativamente muito menos ataques por parte da imprensa, começaram seu próprio “ataque” em um terreno mais alto: os pagamentos.

(Na imagem: as principais fintechs do mundo, baseado em valor de mercado)
(Crédito: Statista)

Vale ressaltar que, após o seu IPO no dia 09/12/2021, a fintech brasileira Nubank atingiu um valor de mercado de US$41 bilhões.

O processamento de pagamentos é a base de um super-app, que integra os principais recursos fornecidos por terceiros na plataforma e dá aos usuários a conveniência de não precisar inserir informações de cartão de crédito em aplicativos e sites. 

As empresas de serviços financeiros já estão se expandindo para novos mercados como, por exemplo, a American Express, que há pouco tempo adquiriu o serviço de reservas Resy. Dito isso, havia uma lógica de marca nesse negócio, já que há muito tempo que a AmEx oferece serviços de concierge.

Além disso, o JPMorganrecentemente comprou o Infatuation, site de críticas de restaurantes, e, em março, a Square pagou quase US$ 300 milhões pelo serviço de streaming de música Tidal. 

Ainda assim, nem todas essas fusões e aquisições funcionarão. Em novembro, o PayPal demonstrou interesse pelo Pinterest, mas as ações tiveram uma queda e a gestão da empregou logo negou esse interesse. No entanto, uma possibilidade para o PayPal seria expandir para avaliações de restaurantes e, neste caso, o Yelp poderia ser adquirido por pouco mais de um 1% das ações do PayPal.

Reflexões finais

Um super-app é um único aplicativo móvel que oferece serviços básicos, incluindo chat e pagamentos, junto com um conjunto de “miniaplicativos” de terceiros, que vão desde lojas e restaurantes a agências governamentais. 

No caso dos super-apps que já funcionam no Brasil, vale citar o Mercado Livre, que além de facilitar a compra e venda de mercadorias em sua plataforma, também possui um sistema próprio de pagamento (Mercado Pago), sistema de logística para entregas (Mercado Envios), além de facilitar na criação de lojas virtuais através do Shops.

Por último, enquanto presenciamos a chegada e transformação dessas empresas, qual será a diferença entre essa futura transição e as outras que ocorreram no decorrer da história das mudanças tecnológicas? Segundo Galloway, a diferença é que, agora, é possível enxergar a chegada desses super-apps e, de fato, na Asia, eles já chegaram. 

“Como consumidores, investidores e líderes políticos, temos a chance de fazer melhor. Preparar o terreno para a competição e o empoderamento e não a cooptação e o enraizamento. Independente se o nosso futuro seja mediado por Siri, Alexa ou Meta, ele não precisa ser um mundo de vício e exploração. O mundo virtual não é regido pela frase ”é isso, e ponto final“, mas sim o que fazemos dele” 

Scott Galloway
Empreendedor, autor e professor na New York University (NYU), Stern School of Business