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O futuro do dinheiro: descentralização e liberdade


Rudá Pellini, o futuro do dinheiro

Acredito, sinceramente, que as regras do jogo estão mudando, e bem rápido. Estamos próximos de assistir a um xeque-mate na estrutura tal qual ela se constituiu ao longo dos últimos séculos.

Já pensou que há menos de 10 anos pagar contas pelo celular era algo raro? O que dizer sobre transferir e fazer um pagamento usando um QR Code ou tomar empréstimos diretamente por um aplicativo, sem precisar nem pisar em uma agência bancária? Se alguém falasse que você cogitaria comprar uma obra de arte 100% digital, através de um token, e que ela poderia valer milhões de dólares, você acreditaria?

São inúmeras as inovações que geram mudanças e disrupções em setores da economia. Por exemplo, a “simples” criação de um aplicativo para pedir um táxi já mudou um setor inteiro, impulsionando a economia e criando milhares de empresas.

No entanto, são poucas as inovações que possuem um potencial transformador geracional, com a real capacidade de causar uma revolução e mexer nos alicerces das grandes estruturas. O fato é, que a forma como pagamos e transacionamos valor mudou e, como um tsunami, vem causando impactos de segunda ordem em toda a lógica como o sistema funciona hoje.

A Criação do Dinheiro

O mais óbvio e mais simples: o surgimento do Bitcoin em 2008, um sistema de dinheiro eletrônico ponta-a-ponta. A ideia de um dinheiro digital é antiga, em 1983 o criptógrafo David Chaum apresentava o eCash, a primeira tentativa da criação de um “dinheiro da internet”.

David Chaun, pioneiro em criptografia e fundador da primeira moeda digital, a eCash, o pontapé inicial do futuro do dinheiro
(Na imagem: David Chaun, pioneiro em criptografia e fundador da primeira moeda digital, a eCash)
(Crédito: Coin Desk)

Para entendermos todo esse movimento, é necessário entender brevemente como foi a invenção do dinheiro tal qual o conhecemos:

O dinheiro, por si só, não é nada. Ele pode ser um objeto de metal ou um pedaço de papel impresso, mas seu valor físico não corresponde à sua representação simbólica.  O dinheiro possui valor pelo consenso entre as sociedades de que será aceito como meio de troca, permitindo que as pessoas negociem bens e serviços indiretamente. 

Além disso, ele precisa ser também uma unidade de medida para que todos entendam o preço desses bens em questão e uma reserva de valor, quando se torna possível poupar no presente visando compras maiores no futuro. Essa última característica acaba sendo a mais importante, já que idealmente é a que promove a capacidade do poder de compras futuras. Dito isso, é a escassez que garante esse efeito.

No início, quando não havia moedas, praticava-se o escambo, ou seja, a simples troca de mercadoria por mercadoria, sem equivalência de valor. Na Grécia Antiga, o boi, ou pekus, era utilizado como referência nas trocas comerciais. O sal foi outra moeda-mercadoria importante até 640 a.C. 

Logo, tivemos a era das moedas cunhadas em metais até que, em 1661, o Swedish Stockholm Bank, na Suécia, tornou-se o primeiro banco a emitir dinheiro impresso em papel no continente europeu.

Com o tempo, os governos passaram a ter o controle da emissão dessas cédulas, porém foi na Inglaterra, em 1816, que surgiu a ideia de uma moeda lastreada, decisão de vincular a emissão do dinheiro à riqueza em ouro que havia no país. 

Em 15 de agosto de 1971, Richard Nixon, coloca fim ao Acordo de Bretton Woods, de 1944, tornando o sistema monetário americano, pilar da economia mundial, baseado em nada palpável fisicamente, mas na confiança.

Apoiado apenas na fé e no crédito do governo dos EUA, desde a década de 70, as formas de dinheiro que conhecemos são baseadas em emissão de dívida, “lastreados” na crença da capacidade futura de pagamentos.

Ao se tornar abundante e de fácil emissão, o padrão como conhecemos parece ter perdido a principal qualidade: a de funcionar como reserva de valor. 

Com a injeção de trilhões de dólares sob o argumento do combate ao coronavírus e de salvar a economia de um colapso, talvez estejamos diante do início do fim da era monetária tal qual conhecemos. O dinheiro atual pode ter perdido o significado.

Descentralização e liberdade

Na minha visão, foi o surgimento do Bitcoin como tecnologia que permitiu o nascimento de novas aplicações como: criptomoedas, tokens, CBDCs, DAOs, DeFi, NFTs, Web3, metaverso e uma série de outros conceitos.

A razão pela qual acredito nisso é simples: até o Bitcoin, a internet era abundante e infinita. Com o seu surgimento, nasceu também o conceito de escassez digital programada, basicamente a possibilidade de você ter algo único e escasso na era digital, desde um ativo até sua identidade.

Até a criação do Bitcoin –e do blockchain, que permitiu que isso acontecesse– qualquer transação eletrônica (de uma assinatura à uma transferência de dinheiro) dependia que uma organização centralizada, como governos, bancos centrais, empresas, garantisse essa transação.

Representação do Bitcoin, principal criptomoeda, frente a um gráfico do mercado financeiro americano
(Na imagem: representação do Bitcoin, principal criptomoeda, frente a um gráfico do mercado financeiro)
(Crédito: REUTERS / Dado Ruvic)

O blockchain removeu a fricção de intermediários ou autoridades centrais, dando a liberdade para você realizar essas transações diretamente com outro usuário, de forma descentralizada. Basicamente, foi dada a possibilidade de você ter a representação da individualidade de ativos, pessoas e valores em um mundo nativo digital. 

Dito isso, o grande potencial transformacional dessa tecnologia é que ela permite o surgimento de novas estruturas de organizações. 

Enquanto a Web 2.0 marcou o surgimento das redes sociais, permitindo o conteúdo gerado por usuários dentro das gigantes que hoje dominam o Vale do Silício, a Web 3.0 será marcada por plataformas descentralizadas, de finanças a jogos, de arte a conteúdo. 

O investimento necessário em infraestrutura para as plataformas como o Google, Facebook e Amazon funcionarem é gigante, então é natural que o crescimento da Web 2.0 culminasse na centralização. O problema é que centralização significa aumento de poder na mão de poucos, o que pode acabar resultando em censura e aumento custos, inibindo a competição.

Uma alternativa a esse modelo são plataformas distribuídas, peer-to-peer, onde os usuários são beneficiados e contribuintes para a manutenção do sistema. O modelo de negócios onde o usuário é o “produto” da rede dá espaço para um modelo de economia circular onde o valor criado na rede é capturado por quem participa dela.

Instrumentos tradicionais do mercado financeiro, como futuros e derivativos, swaps e loans já estão funcionando em plataformas de finanças descentralizadas onde usuários podem servir como market makers e o próprio protocolo –um código de programação autônomo que carrega as regras de negócio– garante a execução das transações e cabe aos próprios usuários monitorar, validar e assegurar que a regra está sendo cumprida.

O próprio Banco Central do Brasil pretende integrar os protocolos de DeFi na implantação do Real Digital, a CBDC (Central Bank Digital Currency) brasileira. Neste caso, a CBDC é uma alternativa centralizada, mas facilita a conectividade com outros protocolos e aumenta a possibilidade de ofertas de novos produtos e serviços.

Ainda é cedo para dizer tudo o que poderá surgir, mas com uma geração inteira nativa digital, é uma questão de tempo até que passemos a perceber essas pequenas mudanças e, então, de uma hora para outra, isso fará parte do nosso cotidiano.

“Gradually, then suddenly”.

Ernest Hemingway

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