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Máfia da 99: como o serviço de ride-sharing fomenta novas startups


99 Startups: como o serviço de ride-sharing fomenta novas startups

Estimulando inovação, tecnologia e DNA empreendedor, a “máfia 99” desponta como um dos maiores celeiros de negócios do país, ensinando que para ideias terem mais chances de saírem do papel é necessário, além de investimento, uma cultura empreendedora consistente.

Com um forte propósito de desenvolvimento e autonomia disseminado entre os colaboradores, o app de transportes vem galgando um espaço fundamental no que diz respeito à criação de startups. Isso porque, muitos de seus ex-funcionários estão criando os próprios negócios, entregando inovação e tecnologia.

Com o mundo cada vez mais tecnológico e globalizado, a tendência de crescimento desse modelo vem aumentando ao longo dos anos. De acordo com um estudo da Genoma, as startups atingiram mais de 3 trilhões em valor globalmente.

Já no Brasil, a expectativa de desenvolvimento mantém-se animadora. Segundo dados da ABSTARTUPS, de 2015 a 2019, o número saltou de uma média de 4.100 para 12.700, representando um aumento de 207%. 

Confirmando a expansão, em 2021, o país tinha 14.065 startups distribuídas em 78 comunidades e 710 cidades brasileiras.

Apesar dos avanços no mercado nacional, o maior número concentra-se nos Estados Unidos. Segundo um levantamento da CB Insights, o país também comporta metade dos chamados unicórnios, termo utilizado para denominar as que atingem um valuation superior a US$ 1 bilhão.

Contudo, já colecionamos alguns cases de sucesso. Em 2021, 10 startups brasileiras se tornaram unicórnios: MadeiraMadeira, C6, Hotmart, Mercado Bitcoin, Unico, Frete.com, CloudWalk, Merama, Olist e Facilyo. Ao todo, 21 empresas atingiram valor igual ou superior a US$ 1 bilhão, entrando na categoria.

Esse crescimento é importante não só para o fomento do ecossistema nacional, que ainda é relativamente novo, como também dá indícios de quais caminhos utilizar para expandi-lo, afinal, o modelo deve manter-se escalável e replicável.

 “Uma startup é uma instituição humana desenhada para criar um novo produto ou serviço em condições de extrema incerteza.”

Eric Ries – no livro  The Lean Startup 

Diante de tantas empresas alcançando cada vez mais sucesso, algumas em especial,acabam sendo consideradas pioneiras, como é o caso do aplicativo de transportes 99.

Fundada em 2012 por Paulo Veras, Ariel Lambrecht e Renato Freitas, a 99 ocupa um lugar de destaque não só por ter sido o primeiro unicórnio do país, mas também, por estar se transformando em um dos maiores celeiros do Brasil para outras startups, juntamente com a Yellow, fundada também por Freitas e Lambrecht. 

99 Startups: como o serviço de ride-sharing fomenta novas startups
(Na imagem: Renato Freitas, Paulo Versa e Ariel Lambrecht, fundadores da 99)
(Créditos: Divulgação)

O aplicativo de transportes foi vendido para a chinesa Didi Chuxing em 2018 por US$ 1 bilhão, e logo depois a criação de novos empreendimentos por ex-funcionários deslanchou, tornando-se uma referência nacional e consolidando-se como uma verdadeira “máfia”. 

Mas antes de avançarmos mais, é preciso voltar alguns anos atrás, e falar sobre outro grande negócio:  o Paypal. 

Saiba mais: Como começar uma startup em 2022 e tirar as ideias do papel? 

A Máfia da Paypal

Fundada em 1999 por Peter Thiel, a empresa de pagamentos foi comprada pelo eBay em 2003 por US$ 1,5 bilhão, e deu início ao termo “Máfia da Paypal”, por ter entre seus colaboradores uma série de empreendedores e investidores bem-sucedidos.

O termo foi utilizado pela primeira vez em 2007 em um famoso artigo da revista Fortune que abordou o alto nível de sucesso de ex-funcionários da empresa ao abrirem seus próprios negócios. 

Entre os nomes que podem ser considerados um legado da empresa estão Reid Hoffmann, fundador do LinkedIn; os criadores do Youtube Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim; Elon Musk, criador da Tesla; e muitos outros. 

O próprio Peter Thiel, que foi CEO da empresa até outubro de 2002, foi um dos primeiros investidores do Facebook e co-fundador do The Founders Fund, uma empresa de Venture Capital que ajudou a lançar negócios como SpaceX e Airbnb.

99 Startups: como o serviço de ride-sharing fomenta novas startups
(Créditos: fortune.com)

“O nome foi uma espécie de piada do Vale do Silício que durante o começo da Web 2.0, com tantos funcionários da Paypal saindo e fundando muitas startups de sucesso com colegas, colegas de classe e amigos. O nome ganhou vida própria depois do grupo ter aparecido na Fortune Magazine com fotos imitando gangsters em um café italiano […]”. 

Sean Narvasa, gerente de produto, em sua página no Quora
99 Startups: como o serviço de ride-sharing fomenta novas startups
(Na imagem, membros da “máfia do Paypal” na Fortune Magazine: da esquerda para a direita, de cima para baixo: Jawed Karim, Jeremy Stoppelman, Andrew McCormack, Premal Shah, Like Nosek Ken Howery, David O. Sacks, Peter Thiel, Keith Rabois, Reid Hoffman, Max Levchin, Roelof Botha, Russel Simmons, Elon Musk)
(Créditos: Fortune Magazine)

Diante disso, é fato que muitos dos que passaram pela empresa de pagamentos não só começaram/investiram em outros negócios, mas negócios substancialmente muito bem sucedidos. 

Como podemos explicar esse fenômeno? Um mindset empreendedor, atitude inovadora, e investimentos consideráveis podem ser considerados como alguns dos fatores determinantes para a criação da “máfia do Paypal”.

Ao constatar o mesmo movimento em solo brasileiro, podemos levantar algumas hipóteses que façam essa corrente de empreendedorismo estender-se, gerando cases tão bem-sucedidos quanto foi o caso da empresa de pagamentos. 

Como a 99 fomenta o desenvolvimento de novas startups brasileiras

Voltando a solo nacional, em um levantamento apurado e confirmado pelo Estadão, mais de 20 novas empresas foram criadas por ex-funcionários tanto da 99 quanto da Yellow, abarcando diversas áreas, como saúde, educação e até podcasts. 

Entre os negócios estão a Boomerang, Orelo, Spry (comprada pela Loft), Agência Estufa, Ellas, Pingo, 01, Toni, Espaço Doctor, Infomap, Profissão RelGov, Explore Creative Learning, Parrot Software, WeCook Data Kitchens, Waldi, iHunt, Torus e Reflow. 

Além disso, a Swap, que cria carteiras digitais e finteches; a Kovi que aluga carros para motoristas de Uber e 99; o aplicativo Quicko, que trabalha integrando diversos meios de transporte; e também, a healthtech Alice, são alguns outros nomes de destaque. Inclusive, essa última tem grandes chances de se tornar um unicórnio em breve.

99 Startups: como o serviço de ride-sharing fomenta novas startups
(Na imagem: interface do aplicativo Alice)
(Créditos: alice.com)

Mas, afinal, como todos esses negócios começaram com ex-funcionários da 99 e Yellow, desenvolvendo essa “máfia” nacional? 

Uma série de aspectos contribuem para a criação dos perfis empreendedores, e a seguir, separamos alguns pontos fundamentais para esse movimento:

Cultura empreendedora

A princípio, incentivar uma nova geração de empreendedores pode parecer um desafio grande demais. Contudo, à medida que entendemos mais sobre o ecossistema de inovação, é possível compreender que na verdade, esse movimento de empreendedorismo geralmente é impulsionado organicamente

Isso é, à medida que estabelecemos uma cultura voltada para autonomia, empreendedorismo e foco no que realmente importa, a inclinação para começar a empreender é como um passo natural para a maioria dos funcionários da empresa, como aponta Ury Rappaport, ex-funcionário da 99 é um dos fundadores da Swap:

“A 99 sempre teve a cultura de fazer acontecer. Éramos constantemente desafiados a pensar e a viabilizar coisas com a nossa criatividade. E isso permeou todas as áreas”

Ury Rappaport – ex-funcionário da 99 e fundador da Swap

Ou seja, ao estimular uma cultura empreendedora, a 99 instaura uma forte tendência a gerar mais determinação e pessoas verdadeiramente alinhadas com o propósito, querendo aprender ao máximo e consequentemente, com vontade de construir o próprio legado – dentro ou fora da empresa.

“Acho que a 99 mostrou que empreender tem muitos desafios, mas se você juntar as pessoas certas, super alinhadas na cultura e no propósito, não tem gigante Golias que te derrube.”

Ariel Lambrecht – fundador da 99 e da Yellow

Aprendizado exponencial 

Por se caracterizar como um ambiente de crescimento acelerado e muitas vezes com processos ainda em construção, o aprendizado voltado para a resolução de problemas foi bastante estimulado, fazendo com que a empresa se tornasse uma verdadeira escola de empreendedorismo.

Placa da Kovi, empresa de aluguel e compra de carros fundada por Adhemar Milani Neto.
(Na imagem: Placa da Kovi)
(Créditos: Divulgação)

“Em pouco tempo, saímos de 100 para 1000 pessoas. São poucas empresas que passaram por esse hipercrescimento rápido e violento. É um aprendizado primordial para o empreendedor”

Milani Neto – ex-funcionário da 99 e fundador da Kovi

Além disso, o aprendizado constante reforça o viés de inovação, que pode se mostrar como um diferencial consistente.  

Uma cultura empreendedora, tende a convidar empreendedores

Como vimos, há um aspecto fundamental que impacta diretamente na cultura empreendedora instaurada na 99, e que justifica o nascimento de tantos negócios: a contratação de pessoas com valores alinhados. 

“São espaços que têm DNA empreendedor e atraem funcionários que têm essa veia.”

Guilherme Fowler – professor de empreendedorismo do Insper

No caso da 99, além de estimular a autonomia e maneiras de solucionar problemas com viés inovador, para Lambrecht, esse perfil de colaborador já fica claro na entrevista de emprego, antes mesmo de entrar na empresa:

“Na entrevista de emprego, muita gente já falava que queria empreender e que estava ali para aprender como funciona. É algo pouco convencional para uma empresa comum, mas isso fazia meu olho brilhar, porque a pessoa mostrava que queria executar e reproduzir o modelo.”

Ariel Lambrecht – Fundador da 99 e Yellow

Gargalos são transformados em oportunidades

Ao serem estimulados a trabalharem de maneira autônoma em muitos projetos, muitos deles começando do zero, além de aprender sobre determinados temas e suas respectivas dinâmicas, muitas ideias de negócios nasceram a partir de gargalos identificados dentro da própria 99, que foi o caso da Kovi e da Swap, por exemplo. 

Ao cuidar da área do Pop e do táxi do aplicativo, Milani Neto, um dos fundadores da Kovi, se deparou com um grande desafio: aumentar a base de motoristas do aplicativo. Contudo, muitas pessoas não tinham carros. 

Assim, nasceu a empresa, que hoje tem uma frota de 7 mil carros e está presente em dois estados brasileiros: São Paulo e Porto Alegre, além da Cidade do México. 

99 Startups: como o serviço de ride-sharing fomenta novas startups
(Na imagem: Douglas Storf e Ury Rappaport,  fundadores da Swap)
(Créditos: Divulgação)

A história da Swap é parecida. Antes da 99 ser comprada pela chinesa Didi Chuxing, a ideia era construir uma carteira digital para os motoristas do aplicativo, o chamado 99 Pay. Porém, o projeto não evoluiu sob a direção dos novos donos e o negócio surgiu a partir dessa demanda identificada: a Swap cria wallets e bancos para outras empresas.

Mais chances de captar investimentos

Participar de uma empresa bem-sucedida, desenvolvendo habilidades e aprendendo lições na prática, os funcionários, ou no caso, ex-funcionários, tendem a serem vistos como empreendedores de segunda viagem aos olhos de investidores de venture capital, o que tende a aumentar as chances de captar recursos. 

Essa não é somente uma percepção. A Kovi, por exemplo, já captou R$ 40 milhões, a Swap R$ 17 milhões e a Healhtech Alice R$ 16 milhões, demonstrando que os investidores tendem a depositar mais confiança em empreendedores que já tiveram alguma vivência prévia.

Além de investimento, capacitação é essencial para o sucesso das startups

Com o sucesso de muitas empresas, como foi o caso de muitos negócios gerados a partir da “máfia da 99”,  há a tendência de que mais empregos e mais tecnologia sejam gerados, fazendo com que o interesse de investidores aumente. Assim, o cenário de empreendedorismo é retroalimentado.

Em suma, essa dinâmica constitui o ciclo virtuoso do ecossistema, um resultado da relação benéfica que provém da própria dinâmica do setor de inovação. Ou seja, mais inovação gera mais negócios, que gera mais trabalho, que por sua vez, gera mais investimentos.

Não só isso, como consequência desse contexto favorável, há mais IPOs para o setor de tecnologia.

IPO é a sigla para “initial public offering”, ou “oferta pública inicial” em tradução livre, e representa a primeira vez que uma empresa recebe novos sócios, realizando uma oferta de ações ao mercado. Desse modo, torna-se uma companhia de capital aberto, o que equivale a um maior interesse e investimento do mercado.

Além de trazer mais desenvolvimento para o ecossistema como um todo, faz com que empreendedores que tiveram liquidez através do IPO, se tornem também investidores-anjo ou membros de uma Venture Capital.

O que presenciamos acontecer na Paypal e agora com a 99 e Yellow, é o resultado não só de investimentos por si só, mas também uma consequência direta de um movimento empreendedor cada vez mais forte: acreditar em ideias novas e fazer com que se tornem realidade.

De forma geral, ao passo que uma empresa atinge o sucesso, ela impulsiona positivamente o ciclo virtuoso. O Brasil vem avançando, e segue em 24º lugar no ranking global.

É fundamental que possamos compreender que para que existam cada vez mais “máfias”, um dos principais caminhos é através de investimento em uma cultura organizacional empreendedora. 

O erro nunca foi visto como um problema. Era visto como uma oportunidade de aprendizado para acertar na próxima vez […] Tínhamos muita autonomia. Focamos naquilo que tinha relevância e importava ao negócio”

Pedro Somma – ex-funcionário da 99 e fundador da Quicko.

Ou seja, é preciso criar times autônomos, que sejam estimulados a usar a criatividade e a exercitar o olhar empreendedor a fim de solucionar problemas a partir de inovação e tecnologia. Desse modo, ao mesmo tempo em que aprendem em um espaço de tempo cada vez mais curto, distribuem conhecimentos, tornando-se propulsores de negócios futuros. 

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