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Entrevista com Romero Rodrigues, cofundador do Buscapé e investidor de VC na Headline


Entrevista com Romero Rodrigues, cofundador do Buscapé e investidor de VC na Headline

Romero Rodrigues começou como cofundador do Buscapé no fim dos anos 90, quando o termo startup nem existia e a internet era utilizada por cerca de 100 mil brasileiros. Desde então, ele percorreu uma trajetória de sucesso, ajudando a construir a primeira grande startup de sucesso em solo nacional.

Empreendedor visionário, Rodrigues atualmente está do outro lado da mesa, buscando e investindo em startups com potencial.

Em entrevista concedida a Revista G4 Club, Romero conta sobre como decide em quais negócios vai investir. Entre alguns pilares do processo decisório, cita quais aspectos não devem ser ignorados e a importância de fazer as perguntas certas antes de realizar qualquer investimento.

Índice:

Você passou de fundador de uma startup de sucesso para investidor em outras startups. Como foi essa troca de chapéu?

Na realidade, foi uma mudança muito tranquila, gradual e orgânica. 

A aquisição do Buscapé pela NASPERS, em 2009, havia sido a maior transação de uma startup até então, e o Buscapé foi a primeira startup a passar por todo ciclo de venture capital

Muitos fundadores e empreendedores daquela época começaram a me procurar, assim como os outros sócios do Buscapé, para pedir mentorias, investimento-anjo e participar do conselho. Naturalmente, em pouco tempo me vi envolvido e acionista em mais de 30 startups e me apaixonei por isso.

Passei cinco anos tocando o Buscapé após a aquisição. Em 2014, decidi mergulhar de cabeça como investidor de uma forma mais profissional, associado a dois fundos de venture capital de primeira linha do Vale do Silício: o time da RedPoint eVentures e a XP na Headline.

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Como você decide em quais startups vai investir? De quais critérios você se vale para entender se aquele negócio será lucrativo? O que faz você declinar?

Para investir em uma startup, a gente olha de uma forma simples três grandes capítulos.

O primeiro é o tamanho do mercado. Nós precisamos investir em mercados que vão ser muito grandes em dez anos, independente deles existirem ou não hoje, mas precisam ser mercados milionários.

O segundo é a dor. Qual é a dor que esse time está resolvendo nesse grande mercado? Quanto maior a dor, mais fácil é ter um modelo de monetização de rentabilização da startup, um modelo de negócio.

O terceiro capítulo é o mais importante. São as pessoas, o time, o estágio em que a gente investe. Com certeza a startup vai mudar a sua tecnologia, vai mudar o seu modelo de negócio. Ela muda o seu produto quase toda semana e precisa de um time muito bom para acompanhar a velocidade destas mudanças.

“Então, dá para investir em um produto B tocado por um time A, mas não dá para investir em um produto A tocado por um time B. Os principais motivos que nos levam a declinar uma startup têm a ver com a qualidade do time não ser suficiente para o desafio.”

Às vezes, há problemas de participação societária. Quando os founders estão muito diluídos, não gostamos de investir. É ao contrário da lógica. Queremos uma startup, e por ter sido founder eu sei disso, que o fundador tenha uma participação grande no negócio para ele seguir faminto e motivado. Founder muito diluído é um problema.

E tem a questão do estágio: quando eventualmente uma ideia ainda está só no papel, é muito difícil aceitarmos investir, a não ser que seja um founder consagrado com o qual já  trabalhamos no passado.

O que é mais relevante: tecnologia desenvolvida ou viabilidade do negócio?

Isso depende de qual é o modelo de negócio da startup. Temos no Brasil uma minoria entre as chamadas deep techs. São startups que desenvolvem tecnologias inéditas no mundo.

Sem dúvida, o time é super importante, assim como a tecnologia. A grande maioria das startups está focada em inovar não necessariamente em tecnologia de ponta, mas sim em um modelo de negócios. Isso equivale a 80% do total. 

Elas vão usar tecnologias disponíveis para todos e, a partir daí, criar modelos de negócio inovadores. Nesse caso, a viabilidade do modelo de negócios e a dor que ele está resolvendo no mercado se tornam mais importantes para nossa análise.

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Qual peso tem a avaliação da pessoa em si que está fazendo a captação? Há características que chamam mais a atenção do que outras? Quais?

Altíssima. No final do dia é tudo sobre pessoas. Nós buscamos empreendedores, além de ter experiência passada no mercado em que eles estão causando uma ruptura. Por exemplo, uma healthtech tem que ter um dos sócios que já tenha trabalhado ou operado no setor de saúde.

Também são muito importantes as habilidades comportamentais do time, principalmente, o  quanto o time é capaz de absorver o feedback, o quanto ele trabalha em grupo, a inexistência de disputa ou ruídos e a qualidade para complementar seus pontos cegos atraindo gente talentosa do mercado.

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Que mercados na sua opinião têm ainda bom potencial de investimentos no Brasil e por que?

O Brasil é um grande celeiro de inovação de startups. É um mercado gigantesco, infelizmente com muita burocracia e muito déficit de infraestrutura. Mas isso, na prática, é bom, porque onde tem dor há oportunidade para o empreendedor criar uma startup. Alguns setores têm se mostrado grandes mercados e apresentado grandes oportunidades.

O mercado financeiro, que é gigantesco e ainda com muita ineficiência, segue apresentando boas oportunidades para as fintechs. A saúde permanece um problema enorme a ser resolvido no Brasil.

 O Agro, sem dúvida nenhuma, tem uma vocação nacional enorme, principalmente agora, com tecnologias como 5G e a IoT que vêm trazendo uma grande revolução nesse espaço.

Como fazer para detectar uma oportunidade de mercado que ainda não seja atendida?

Eu costumo falar para empreendedores que estão buscando uma ideia, por aquele momento “A-HÁ”, sempre procurarem pela dor. 

“Quanto maior a dor, maior o mercado que sofre daquela dor, maior é a oportunidade de se criar uma startup de sucesso, um novo unicórnio. Não faltam dores no Brasil. No mundo, diria, mas principalmente no Brasil, nos mais diversos setores.”

No final do dia, toda vez que uma experiência é ruim, toda vez que algum processo é feito com dor, toda vez que você tem insatisfação, há uma oportunidade de fazer um produto dez vezes melhor ou dez vezes mais barato, senão os dois ao mesmo tempo. Aí que moram as grandes oportunidades. 

Quando você troca, você aumenta em uma ordem de grandeza a qualidade de serviço e diminui em uma ordem de grandeza o custo e quanto se paga por aquele produto ou serviço.

Se você tivesse que inverter os papéis e, hoje, participar de uma rodada de captação de recursos, que elementos você levaria para sua argumentação? No que focaria?

Eu começaria fazendo perguntas. O que está quebrado? O que não está funcionando no mundo? Que tipos de dores isso gera? Qual é o tamanho desse mercado, dessa dor? O quanto tem de valor em resolver essa dor?  Por que eu e meus sócios somos um time certo e melhor preparado para resolver isso? Como exatamente a gente vai resolver? 

A gente não precisa mudar depois, mas como a gente vai resolver, como estamos resolvendo, já com indicadores de que isso tudo está no caminho certo.

Hoje há uma proliferação de unicórnios, startups que passam a ser avaliadas na casa do bilhão de dólares, mesmo com pouco tempo de operação. Até já se cunhou uma nova expressão, ‘startup camelo’, como contraponto, para identificar aquelas que perseguem um crescimento mais sustentável e financeiramente saudável a longo prazo. Qual das duas tem mais chance de sobreviver e prosperar?

Entrevista com Romero Rodrigues, cofundador do Buscapé e investidor de VC na Headline

Bom, uma startup camelo sempre existiu. O Buscapé e o Mercado Livre foram camelos e, sem dúvida, em um mercado como o brasileiro, onde a gente brinca que até o passado é incerto, é sempre melhor você ser resiliente e ter um modelo de negócio que possa sobreviver a qualquer chacoalhada política ou macroeconômica.

Em geral, você vê founders muito bons em vender ideias e captar, e founders muito bons em entregar valor, em operar. Os primeiros se beneficiam do momento de pujança no ciclo econômico, como a gente viu nos últimos 8 anos. 

O segundo tipo de founder sempre vai sobreviver, já que ele está preparado para a tempestade e ele vai velejar bem quando for mar de almirante.

Ser empreendedor, hoje, é mais fácil ou mais difícil do que quando você começou? Por quê?

Na verdade, é diferente. É sempre mais difícil do que as pessoas de fora imaginam. 

O desafio em 1998, quando comecei, era que o mercado não existia, era uma aposta muito maior e não havia nenhum tipo de investimento em startup, nem sequer existia a palavra startup. Então, obviamente, começar, colocar o produto no mercado e desenvolver tecnologia era muito mais difícil.

Hoje, o mercado que era de 100 mil usuários de internet, é de 170 milhões só no Brasil. Você tem todo tipo de fundo investidor para colocar dinheiro na sua startup. A tecnologia está pronta, ficou fácil de ser desenvolvida, é fácil de comprar. Qual é o desafio? Competição.

“Da mesma forma que é muito mais fácil para você, é muito mais fácil para qualquer outro competidor desenvolver alguma solução. Então, se antes era principalmente um diferencial tecnológico ou uma visão de futuro, hoje, o diferencial é o go-to-market, como você ataca e conquista clientes.”

Qual o papel do network para um empreendedor?

Fundamental! Um bom empreendedor é, antes de mais nada, um vendedor de sonhos, atraindo as pessoas mais talentosas do mundo para ajudá-lo a construir esse sonho. Sejam elas os primeiros sócios, primeiros colaboradores, fornecedores, investidores, usuários e clientes. O networking é parte fundamental de construir esse time de sucesso.

O G4 Educação tem como meta ajudar a gerar 1 milhão de empregos através de nossos alunos até 2030. E você, em termos de missão, o que pretende conquistar daqui por diante?

Eu acredito fortemente que só o empreendedorismo e a educação podem transformar o mundo de maneira mais definitiva. Ou seja, uma sociedade que recebe investimentos de empreendedorismo e educação nunca volta um passo atrás, mesmo que esse recurso seja retirado. 

“Nesse sentido, minha missão é ajudar os empreendedores mais talentosos do Brasil a escrever um pouco do que vai ser um futuro melhor para toda sociedade, com mais igualdade, acesso e menor diferença entre todos, tirando a maior parte das dores.”

No final do dia, toda vez em que o empreendedor coloca um produto novo que é bem aceito no mercado, de fato, ele está tirando uma dor do mundo.

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