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Entrevista com Felipe Marçal, CEO da Transcota Logística


Entrevista com Felipe Marçal, CEO da Transcota Logística

Felipe Marçal, CEO da Transcota Logística, acredita que, com um bom plano, trabalho duro e resiliência, uma empresa pode ter excelentes resultados, além de reforçar a importância do ESG.

A família Cota carrega consigo o DNA da inovação empresarial. Tem sua “cota” italiana, mas foi atracada no leste de Belo Horizonte, que Elizeu Cota comprou seu Chevrolet Detroit 76 para carregar areia. Hoje, a Transcota não se resume apenas a uma transportadora que leva uma carga de um ponto a outro. 

Trata-se de uma empresa que desenvolve soluções logísticas inovadoras e personalizadas, gerando um valor sustentável e ambiental. À frente, o CEO Felipe Marçal Cota, filho do meio do senhor Elizeu, de 67 anos, que fundou a Transcota há 35 anos, justamente em cima daquele Detroit 76.

Em entrevista concedida a Revista G4 Club, Felipe Marçal comenta sobre o desenvolvimento de sua trajetória, desafios enquanto gestor, ferramentas de produtividade, otimização de tempo, aprendizados e próximos passos.

G4 Club: Conte-nos sobre como você começou e a sua jornada profissional até o momento

Felipe Marçal: O trabalho duro sempre correu nas minhas veias. Desde os 10 anos de idade, já vendia picolé da fábrica que ficava próxima à minha casa. No dia a dia sempre comprava e revendia diversas coisas para ter o meu próprio dinheiro. 

Cursei Engenharia de Produção e tive a oportunidade de estagiar na maior empresa de logística automotiva do Brasil. Aprendi muito sobre senso de urgência, trabalho duro, reinvenção de processos, solução de problemas, mapeamento de processos, melhoria contínua, planejamento estratégico eficaz e resiliência. 

Após a conclusão do estágio, a empresa me contratou e criou um setor de Engenharia Logística, para que o desenvolvimento positivo do trabalho não fosse interrompido. 

Fiz bom networking no mercado e com 22 anos iniciei minha jornada empreendedora, adquirindo caminhões para prestar serviços na montadora Fiat. Após alguns meses, decidi me desligar do trabalho CLT e me dedicar 100% à minha jornada empreendedora.

Inicialmente, tive que escolher entre criar um CNPJ do zero ou assumir a gestão da empresa familiar, uma pequena transportadora do interior com apenas dois veículos e faturamento anual de R$150.000,00. Escolhi dar continuidade ao legado do meu pai, assumindo a gestão da Transcota Logística Ltda. 

Em um momento em que os conceitos de indústria e logística 4.0 estavam apenas no início, fiz toda organização sistêmica da empresa, estruturação de processos, identifiquei oportunidades de crescimento e inovação.

Em pouco tempo, já via o faturamento dobrar, triplicar… A Transcota cresceu 30% em meio ao cenário pandêmico. Isso tudo foi um processo orgânico, de constante busca por excelência. 

E nesta mesma busca por aprimorar e inovar dentro do negócio, surgiu a necessidade de iniciarmos agora um processo de rebranding. Com sua origem familiar, hoje a Transcota, através de diversas iniciativas, tem a necessidade de comunicar, também pelo nosso nome, um valor que é inegociável em nossa gestão: a sustentabilidade

É por isso que, em breve, formalizaremos esse processo, através de um novo nome: Zero Carbon Logistics.

Indústria 4.0 (Crédito: Visual Capitalist)

G4: Qual foi o maior desafio pelo qual você já passou como líder/gestor?

FM: Em qual empreendedor nunca deu arrepios ao falar sobre gestão de pessoas? Para mim não foi diferente. Eu comecei a estruturação da empresa sozinho. 

À medida que crescemos, criei “braços” na operação, administrativo e financeiro. No comercial, não foi diferente. Porém, mal sabia que daí viria um dos nossos maiores desafios (mas que, ao final, foi o que trouxe o nosso maior resultado). 

Fiz tentativas de contratações de alguns profissionais de mercado, mais experientes, para liderar essa estruturação do setor comercial. Reestruturar um setor não é difícil, porém, é desgastante. Os colaboradores não quiseram ficar, e eu mesmo tive que assumir o setor em janeiro de 2021. 

Ao invés de buscar outro profissional no mercado, resolvi desenvolver quem já estava na equipe: profissionais juniores, mas com um bom perfil comportamental. Não tinham experiência, mas tinham o mais importante: comprometimento e sede de aprender e crescer. 

Assim, conseguimos em três meses reestruturar o setor, identificar os principais gargalos, trazer novas ferramentas, como o Kanban, e automatizar via sistema as tarefas repetitivas. Resultado: dobramos o faturamento da empresa sem nenhuma contratação a mais. 

Com os processos já reestruturados e um resultado muito acima do esperado, desenvolvi uma líder que já estava conosco nessa equipe e os demais colaboradores do setor agora recebem participação financeira sobre o faturamento global. Dessa forma, valorizei quem participou desse processo comigo e ajudou a construir o setor do zero. 

E sabe qual foi a conclusão que tirei disso tudo? 

O dinheiro não resolve todos os problemas. Eu tinha condição para remunerar muito bem um profissional de mercado, mas não consegui. 

Desenvolvimento e gestão de equipes trouxe um resultado muito mais satisfatório, que talvez não seria possível se aquele primeiro profissional que não quis ficar tivesse continuado. É possível fazer muito mais quando você tem pessoas boas, com perfil compatível e, claro, a partir da metodologia certa.

G4: Qual ferramenta de gestão você considera a mais importante para o crescimento do seu negócio?

FM: Sempre me espelho na metodologia Lean. Dentro da nossa cultura, o foco está sempre na qualidade e excelência. 

Uma ferramenta que ajuda muito nisso é o Kaizen. Através da melhoria contínua, os colaboradores aprendem com o que dá errado e sugerem melhorias. Nós temos um sistema de bonificação para intensificar a busca por qualidade e enraizar este princípio na cultura da empresa. 

Sendo muito sincero, eu poderia falar aqui de estruturas para vender, criar escala e subir o faturamento. Mas não é assim que nós trabalhamos. Aqui, primeiro buscamos a melhoria contínua dos nossos serviços, para realmente oferecer ao cliente uma experiência muito acima do esperado.

O aumento do faturamento vira uma consequência orgânica desse processo. Uma grande prova disso é o nosso crescimento de 30% ao ano somente a partir da nossa base e de indicações dos clientes.

G4: Temos fácil acesso a uma série de conteúdos na palma das nossas mãos e a sensação de que não podemos parar de aprender. Nos últimos tempos qual assunto novo despertou seu interesse e como você tem aplicado no seu dia-a-dia? (Pode ser assunto profissional ou pessoal).

FM: Sigo em constante aprendizado – entre os temas que mais estudo está o crescimento empresarial. Hoje, meu foco está em aprender mais sobre gestão de pessoas. 

Já estamos implementando vários desses aprendizados como a certificação do GPTW, Humanizadas, Capitalismo Consciente e o Sistema B. Esse é um ponto chave para escalar com excelência e qualidade.

G4: A agenda de um gestor é geralmente um caos. Como você otimiza o seu tempo para atingir não só metas profissionais, mas também pessoais?

FM: Busco automatizar atividades repetitivas. Assim, otimizo meu tempo para participar ativamente das estratégias do negócio, garantindo a maior parte do tempo trabalhado em atividades que agregam valor (ao invés de viver “apagando incêndios”). 

Isso auxilia tanto nas metas profissionais, quanto pessoais. 

Uma coisa é consequência da outra, como um ciclo. Uma menor exaustão mental traz uma melhor rotina familiar. Uma rotina familiar melhor equaliza a minha energia para manter um ritmo constante de produtividade.

G4: Qual foi o maior aprendizado durante esses anos que você acredita poder ser aplicado a qualquer tipo de negócio?

FM: A Transcota (agora Zero Carbon Logistics) foi a minha maior escola. Desde o início, aprendi a cultivar o sentimento de começar pequeno, com a maior qualidade possível e boas pessoas, validar e escalar, sempre nessa ordem. 

Quanto mais você simplifica, melhor fica para você estruturar o negócio. E, hoje, eu mantenho esse aprendizado ao iniciar novos negócios. Criei uma equipe de BACKOFFICE, que consigo aproveitar para todas as empresas. Fica mais simples, crio empresas com leveza.

O simples funciona. Trabalhe com o que você tem em mãos. Seja resiliente. Com um bom plano, trabalho duro e resiliência, acredito no resultado de qualquer negócio que de fato resolva a dor dos clientes. 

Pode ser que demore mais do que você imaginou, mas se você realmente acredita no negócio e está trabalhando para isso, você faz o impossível virar possível.

G4: Quais serão os próximos passos da sua empresa? E quais são os maiores desafios que você terá que enfrentar para alcançá-los?

FM: Eu pisei no freio para estruturar a empresa. Hoje, estamos prontos para crescer do jeito certo. Fazendo uma analogia com plantio e colheita, primeiro, nós plantamos boas sementes. 

Estamos regando, adubando e cuidando dessas sementes para que elas cresçam fortes e saudáveis. Agora sim é hora de pisar no acelerador e escalar. 

O desafio é fazer esse crescimento orgânico, continuando o legado com a mesma qualidade e valores da cultura organizacional, sem que eu necessariamente precise colocar a mão o tempo todo. 

Quero estar ao lado das pessoas certas para crescer sem perder a qualidade e essência do negócio. A meta é manter o padrão Premium de atendimento, mesmo para um número muito maior de contratos e clientes.

G4: Ter um diferencial é essencial para qualquer empresa que quer se destacar no ramo de atuação. Qual o maior diferencial da sua empresa? Como foi o processo de implementação e qual a importância para o seu negócio atualmente?

FM: Sem dúvidas: o padrão de qualidade e excelência e propósito. Estamos totalmente ligados ao ESG, o que ajuda muito na captação dos clientes e na diferenciação da concorrência. São dois fatores sempre colocados na balança quando um cliente escolhe os nossos serviços.

G4: Qual é a sua opinião sobre o impacto das empresas nas questões sociais e econômicas do Brasil? E como você e a sua empresa especificamente almejam impactar/transformar o país?

FM: Hoje, eu vejo que a maioria das empresas brasileiras não se preocupa com o ESG. Se todas as empresas tivessem essa preocupação, haveria um impacto social gigante, com mais oportunidade de empregos e até mesmo uma maior participação na política. 

A maioria das empresas está focada em seu fim, cada uma por si. Não é comum encontrar empresas que se unem para ajudar a resolver uma questão maior. 

Imagine, por exemplo, uma parceria entre empresas em que 1% do lucro fosse destinado a causas sociais? Já pensou no impacto que isso poderia gerar? Isso seria até uma grande demonstração para o governo de que é possível fazer mais com menos. 

Iniciativas assim fazem com que as empresas continuem gerando riqueza, porém, devolvendo para o meio ambiente com a mesma proporção que utilizam. 

Hoje, o principal propósito da Zero Carbon Logistics com o ESG está ligado à sustentabilidade. Fazemos parte do pacto global da ONU, e somos a segunda empresa do mundo do setor de transportes a conseguir a certificação Sistema B. É uma certificação bem criteriosa para ESG: apenas 200 empresas brasileiras conseguiram, como a Reserva e a Natura. 

Além disso, também temos GPTW e somos a 1ª transportadora do Brasil a participar do Capitalismo Consciente, dentre diversas outras certificações que listarei abaixo para que vocês possam pesquisar mais sobre cada uma das iniciativas. [colocar uma caixa de texto com nome ou logo de cada uma das certificações abaixo: 

  • ONU; 
  • GPTW;
  • Humanizadas; 
  • PLVB; 
  • Despoluir; 
  • B corp; 
  • Selo Verde;
  • Capitalismo Consciente; 
  • Na mão certa; 
  • Selo integridade Prefeitura de Contagem.

E isso é apenas um reflexo do que acontece aqui dentro da empresa: temos caminhões e vans elétricas, uma unidade 100% sustentável, com produção de energia através de placas fotovoltaicas, biodigestor e aproveitamento de água de chuva. 

Dentro da nossa estrutura, 100% da iluminação é LED e utilizamos descargas com botões que evitam o desperdício de água. Um dos nossos principais projetos é a nossa fazenda com compensação do carbono, no Mato Grosso do Sul. Ela neutraliza 100% do CO2 emitido nas operações. 

Lá dentro também existe preservação de animais em extinção. Muitos deles foram apreendidos em fiscalização. Um exemplo disso são os papagaios encontrados dentro de tubos PVC, em uma operação de apreensão de animais que estavam sendo traficados na fronteira com o Paraguai. 

Eles foram resgatados, enviados para a fazenda, recuperados e hoje vivem soltos dentro da mata. 

Estes são apenas alguns exemplos de iniciativas que promovemos para gerar impacto social nas comunidades. É um longo processo, mas estamos convictos de que um negócio de alto impacto vai muito além de faturamento. 

É sobre servir e impactar em todos os sentidos, desde nossos colaboradores, clientes e toda a comunidade ao nosso redor. Essa é a nossa missão. 

Devido às inúmeras iniciativas desenvolvidas e por sermos referência em ESG, fomos convidados para participar da COP 27 no Egito. 

Seguimos confiantes de que este é mais um passo importante para fortalecer nosso propósito e compartilhar nossa mensagem com o mundo… É só o começo!

Se você quer saber mais sobre assuntos como esses levantados na entrevista com Felipe Marçal, conheça a Gestão 4.0 Imersão e Mentoria para Empreendedores e aprenda a implementar no seu negócio as principais estratégias, ferramentas e frameworks de gestão, vendas e growth das maiores empresas do mundo.

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