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Entrevista com Cesar Paiva, CEO da Real Investor


Cesar Paiva, CEO da Real Investor

Considerado o Warren Buffet brasileiro, Cesar Paiva se interessou desde cedo pelo mundo dos investimentos. Depois de algumas decepções profissionais, abriu o Clube de Investimento em Ações Real Investor, no final de 2008, começando com três cotistas: ele, seu pai e sua mãe.

A ideia deu certo, e em 2012, o Clube se transformou no Fundo de Investimento em Ações Real Investor, com um ganho acumulado de 1.400% e um dos melhores históricos do mercado.

Em entrevista concedida a Revista G4 Club, o CEO da Real Investor, Cesar Paiva conta sobre a importância da filosofia do Value Investing na expansão da empresa, além de compartilhar alguns momentos difíceis pelos quais passou, bem como os que superou.

Quem é o Cesar Paiva? Queremos conhecer melhor as suas origens e como era a sua vida antes da carreira profissional.

Nasci em Londrina, Paraná, em 1983. Meu pai é agrônomo e minha mãe, médica. Acredito que tive uma infância e uma adolescência tranquilas. Talvez, seja interessante destacar que, por algum motivo, desde os 10 anos, já gostava de juntar dinheiro, e trocava presentes por aplicações financeiras.

Sempre fui uma pessoa super competitiva; não gostava de perder e ia bem na maioria dos jogos e desafios. Fui campeão paranaense e sul-brasileiro de natação na adolescência, e, na sequência, meu interesse se voltou para o aeromodelismo, um hobby que meu pai praticava, e eu pratico desde os 11 anos. 

Cheguei a ser campeão brasileiro de acrobacia e a ter patrocínios, pelos quais rodava o Brasil, fazendo algumas apresentações. 

Mas, conforme foi chegando a hora de escolher minha carreira e pensar no futuro, sabendo que “piloto de aeromodelo” não seria uma boa escolha, acabei decidindo pela faculdade de administração de empresas, pois tinha enorme interesse em entender mais sobre os negócios e o mundo dos investimentos. 

Como você começou sua carreira no mercado financeiro?

Antes de entrar no curso de administração, lembro de ter pesquisado em uma lista da Forbes quais eram as pessoas mais ricas do mundo. Logo, descartei o número 1 da lista, Bill Gates, pois programação não era comigo.

Fiquei fascinado pelo número 2, Warren Buffett, e sua filosofia de investimento, relativamente simples e de bom senso. Foi então, aos 17 anos, que decidi começar a investir em ações. 

Na sequência, entrei na faculdade, e tive a oportunidade de trabalhar como bancário em uma agência do Banco Bradesco (o mais perto do mercado financeiro, para a realidade de Londrina), mas me decepcionei com o trabalho desenvolvido e as metas de vender produtos nos quais eu não acreditava. 

Depois de dois anos, pedi as contas e, em seguida, em 2006, fui para São Paulo, onde fiz uma série de cursos e tirei algumas certificações, referentes ao mercado financeiro. Nessa época, consegui um estágio não remunerado na Corretora Finabank. Pude, então, conhecer as várias áreas da corretora e especialmente a mesa de operações. 

Contudo, me decepcionei novamente, pelo foco na corretagem e na especulação de curto prazo, estratégias em que eu não acreditava.

Voltei para Londrina e comecei a atuar como agente autônomo de investimento. Brinco que fui um dos piores no que tange à geração de corretagem, pois desde 2001, por influência do Buffett e de vários outros investidores fundamentalistas, nunca deixei de seguir a filosofia do Value Investing, e de ter, como profissão paralela, o cargo de “investidor’’.          

Como minha paixão e foco sempre foram estudar profundamente as empresas e investir no longo prazo, acabei me encontrando quando decidi abrir o Clube de Investimento em Ações Real Investor, no final de 2008, começando com três cotistas: eu, meu pai, e minha mãe. Na sequência, convidei amigos, familiares e ex-clientes para fazer parte do clube. 

O compromisso era investir praticamente todo o meu dinheiro nesse clube e fazer o meu melhor, para entregar resultados superiores no longo prazo. 

Deu certo, o clube cresceu e, em 2012, o transformamos no Fundo de Investimento em Ações Real Investor, que acaba de completar 13 anos de história, com um ganho acumulado de 1.400% e um dos melhores históricos do mercado. Hoje, somos responsáveis pela gestão de aproximadamente R$ 3 bilhões, e contamos com um time de 41 profissionais.

De onde surgiu o apelido “Warren Buffett brasileiro”? Foi você quem criou o nome “Real Investor”? Explica mais sobre essa escolha, por favor.

Desde os 17 anos, quando comecei a investir em ações, o Warren Buffett sempre foi a minha maior inspiração e referência; devo ter lido quase todos os materiais e livros sobre ele e sobre as pessoas que ele tem como referência. 

Não deixei de notar que o maior investidor da história defendia que morar em Omaha fazia dele um investidor melhor, por estar longe do burburinho e das “dicas”, e mais focado no que importa: estudar as empresas e ter foco no longo prazo. 

Por eu estar em Londrina, ter começado muito jovem, estar fora do eixo Rio-São Paulo, e ter conquistado um resultado muito diferenciado, alguns colegas, e algumas matérias sobre o meu trabalho, fizeram essa analogia, passando a me citar como o “Oráculo de Londrina”, ou como o Warren Buffett brasileiro. 

Cesar paiva, ceo da real investor apontando para um quadro do warren buffet
(Na imagem: Cesar Paiva, CEO da Real Investor)
(Créditos: Divulgação G4 Educação)

“Logicamente, estou no começo da carreira, e muito longe do Buffett, mas se conseguir alcançar 1% do que ele alcançou, estarei mais do que realizado.”

Com relação ao nome “Real Investor”, foi inspirado no título do livro “The Intelligent Investor“, de um dos mais influentes investidores da história, Benjamin Graham (mentor do Warren Buffett). 

No livro, o autor define bem a diferença entre o investidor “verdadeiro”, aquele que somente após uma análise minuciosa realiza um investimento, e o “especulador”, aquele que, muitas vezes, investe sem uma análise apropriada. Explicando melhor:

“Ser um investidor inteligente, racional, verdadeiro, ou seja, ser um “Real Investor” é o que buscamos.”

O Real Investor começou como um clube de investimento. Quando foi a virada de chave para se tornar gestora de recursos? 

Após o primeiro ano como Clube, devido ao sucesso alcançado em 2009, um desempenho de 159% e um patrimônio próximo de R$ 30 milhões, decidi dar o passo seguinte, e, em fevereiro de 2010, abrimos a Real Investor Gestão de Recursos, que passou a fazer a gestão desse clube. 

Não foi fácil dar essa “virada de chave”, pois o trabalho e a burocracia exigidos para abrir uma gestora, para alguém que não tinha essa experiência nem uma equipe mínima, pareciam quase intransponíveis; mas, no final, deu certo e conseguimos colocar de pé a primeira gestora independente do norte do Paraná. 

Como ilustração dessa fase, gosto de lembrar daquele ditado: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez.” Enfim, no começo, felizmente, eu não tinha ideia de toda a complexidade envolvida.

Explique mais sobre a estratégia de investimento do Real Investor.

Na Real Investor, possuímos hoje mais de uma estratégia de investimento. Mas, falando da nossa principal estratégia, o investimento em ações, ou melhor em empresas, nosso foco está em encontrar e investir em empresas acima da média, ou seja, ser sócio de negócios com bom histórico e perspectivas favoráveis, que tenham boa rentabilidade sobre o capital empregado. 

Além disso, baixo endividamento e boa gestão, além de gerar muito valor, lucros e dividendos aos seus acionistas. Como todo retorno de um investimento é uma derivada do preço pago, não basta encontrar uma boa empresa.

É preciso ter disciplina e investir apenas se o preço fizer sentido, oferecendo, assim, boas perspectivas de ganho sobre o capital empregado, e, ao mesmo tempo, uma adequada margem de segurança, caso os resultados fiquem aquém das expectativas. 

Como o futuro é cheio de riscos e incertezas, buscamos sempre investir em um portfólio adequadamente diversificado, composto por diferentes empresas e setores. 

Também procuramos não trabalhar alavancados, e, frequentemente, carregamos um percentual do Fundo em caixa e/ou algum hedge, permitindo que, em um primeiro momento, possamos atravessar as crises com mais facilidade e aproveitar as oportunidades geradas para realizar excelentes compras.

Importante destacar que buscamos ser racionais e tomar nossas decisões após muita reflexão, adotando sempre o senso crítico e evitando o senso comum e os modismos do momento. Gostamos também de estudar e de aprender com os erros que outros já cometeram. 

“Mesmo assim, nós erramos. Contudo, nosso sucesso resulta do fato de nossos acertos serem muito maiores do que nossos erros e, também, da humildade em reconhecer os erros e corrigi-los rapidamente.”

E, por fim, mesmo sendo óbvio, vale reforçar que investimos em empresas e não em ações. Temos uma postura de investidores de longo prazo e não de especuladores, focando mais no desempenho dos negócios dos quais somos sócios, do que na oscilação excessiva das cotações das ações na bolsa.

Você possui algum case do qual se orgulha? Conte mais sobre ele.

cesar paiva ceo da real investor sorrindo em frente a um quadro com frase motivacional
(Na imagem: Cesar Paiva, CEO da Real Investor)
(Créditos: Divulgação G4 Educação)

Ao longo de todos esses anos foram vários cases de sucesso, e logicamente vários que decepcionaram, mas vou elencar aqui um mais recente, o da Direcional Engenharia, uma construtora focada no segmento popular, mas que ilustra um pouco o tipo de oportunidade que buscamos.

De maneira resumida, no final de 2016, as construtoras estavam passando por um período desafiador, por causa da recessão, juros estavam altos e o volume de distratos era alto. 

Conseguimos, então, nesse momento, comprar a empresa por um valor equivalente a 50% do seu valor patrimonial (um valor de mercado de, aproximadamente, R$ 600 milhões), uma das empresas mais baratas do setor.

Na verdade deveria ser uma das mais bem precificadas, pois tem um modelo de negócio diferenciado, e uma gestão muito acima da média e que nós admiramos muito.A empresa passava por um momento difícil, e os resultados apresentavam uma “foto feia”; contudo, para quem estudou o caso a fundo, o “filme seria bonito”. 

Temos orgulho das nossas análises e projeções, que acabaram se revelando muito acertadas. Do final de 2016 até hoje, os resultados dessa empresa melhoraram muito, e atualmente é uma das mais bem reconhecidas pelo mercado. Nesse investimento, multiplicamos por três o valor investido, além de receber quase todo o valor investido, nos anos seguintes, em dividendos.    

Além de gestor do fundo, você também foi o sócio fundador. Qual foi o maior desafio de gestão que você enfrentou?

São vários os desafios. Não sei se é o maior, mas um dos principais tem sido justamente o fato de acumular as duas funções. 

Dado o crescimento da Real Investor, o trabalho de CEO mereceria 100% do meu tempo, assim como o trabalho de gestor, e como eu me cobro bastante, sei que é impossível ser 100% nas duas atividades. Estou trabalhando nisso, trazendo e formando gente boa, delegando mais, mas não é fácil.

Já como gestor, sem dúvidas, foram os anos de 2014 e 2015, pois o país e, consequentemente, os investimentos em ações passaram por um período muito difícil, e o mais angustiante é que, antes do impeachment, estava difícil enxergar a “luz no fim do túnel”. Nesse período, pela primeira vez, entregamos um resultado abaixo do Ibovespa, nosso bechmarck.     

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Além de fundos próprios, vocês também administram carteiras. Quais são as vantagens desse formato de investimento?

O business de Asset (fundos de investimentos) é um negócio que, quando bem sucedido, revela-se muito rentável; porém, também é muito instável, dependendo do seu passivo (investidores). 

Bastam um, dois anos ruins para boa parte dos investidores irem embora. Já o Wealth (em que entram as carteiras administradas) é um negócio menos rentável; porém, mais estável. 

“Acreditamos que na Real Investor conseguimos unir o melhor dos dois mundos, obtendo uma série de sinergias, o que acaba proporcionando um serviço melhor e mais completo aos nossos investidores.”

Hoje, gerimos aproximadamente R$3 bilhões, dos quais cerca de R$1,7 bilhão refere-se a investidores diretamente ligados à gestora, que costumam ser mais alinhados e com um perfil mais de longo prazo. O outro R$1,3 bilhão é de plataformas e alocadores. 

Você ficou longe da Faria Lima e do Leblon. Por que preferiu continuar em Londrina?

Do ponto de vista pessoal, primeiro, porque sou daqui; tem toda a questão da família e amigos. Em segundo lugar, Londrina é, na minha opinião, umas das melhores cidades do Brasil. Quando pensamos em qualidade de vida, segurança e custo, ela se destaca, além de ter um tamanho adequado. O defeito é não ter uma praia perto.

Já para o negócio e para nossa estratégia de investimentos, acreditamos que trabalhar mais focados e com menos influência externa ajuda a obter um resultado diferenciado e acima da média. Vale destacar também que há menos concorrência pelos talentos da região, facilitando a montagem de um bom time. 

Além disso, estamos a uma hora de voo de São Paulo, e, inclusive, temos um pequeno escritório na cidade, possibilitando nossa presença na Faria Lima também.

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Como você enxerga o cenário brasileiro no curto, médio e longo prazo?

Difícil responder a essa pergunta. Contudo, sendo coerente com a nossa filosofia, e de maneira bem resumida, ao focar no médio e longo prazos, acreditamos que o vento de maneira geral vai continuar soprando contra.

O país e os políticos não vão facilitar nossa vida, mas, mesmo nesse ambiente, sempre haverá boas oportunidades de investimentos para aqueles determinados a encontrá-las. 

Vale destacar que momentos de pessimismo são os melhores para comprar boas empresas, a preços interessantes, e que costumam ser o insumo essencial para obter bons retornos. Estamos em um desses momentos.

São as pessoas que formam e direcionam o crescimento de qualquer empresa. Como você busca os melhores e quais são as características que compõem esse perfil? 

Não temos uma fórmula mágica para a busca, estamos sempre com o radar ligado e já contratamos pessoas das mais diversas formas. Com relação às características, buscamos pessoas apaixonadas pelo o que fazem. 

Quando encontramos um investidor jovem, que, de maneira proativa, já leu dezenas de livros sobre investimento, fez vários cursos e já vem investindo, mesmo que com pouquíssimos recursos, antes mesmo de trabalhar na área, isso chama a nossa atenção.

E se no momento da entrevista demonstrar bom conhecimento técnico, muita vontade de aprender, raciocínio lógico, capacidade de trabalhar em equipe, além de ser gente boa e ter humildade, é bem provável que esse candidato tenha uma boa chance conosco.

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Nossa missão é gerar 1 milhão de empregos até 2030 através dos nossos alunos. Qual é a missão da Real Investor? E a sua missão pessoal?

Na Real Investor, queremos entregar os melhores resultados no longo prazo para nossos investidores e parceiros, sempre buscando resultados diferenciados com uma boa relação risco versus retorno. Buscamos sempre a excelência, e não queremos decepcionar jamais quem confia em nosso trabalho.

cesar pariva ceo da real investor sentado em seu escritório
(Na imagem: Cesar Paiva, CEO da Real Investor)
(Créditos: Divulgação G4 Educação)

“Com relação à minha missão pessoal, me espelho muito no Warren Buffett. Quero ser um bom exemplo como pessoa e profissional, e gosto muito da ideia de, na fase final da minha vida, doar a maior parte do patrimônio que vier a construir para causas que promovam impacto bastante positivo na vida de quem mais precisa, ajudando o maior número de pessoas”.

Penso em fazer isso de maneira estratégica, provavelmente com jovens que possam se beneficiar diretamente dessa ajuda, e, como consequência, ajudar a mudar a realidade de suas famílias.

Isso me motiva muito a continuar trabalhando na Real Investor pelos próximos 50 anos, pois amo o que faço, e realmente acredito que conseguimos agregar valor para nossos clientes e, no final, para a sociedade.      

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