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O que são empresas familiares? Definições, exemplos e boas práticas


O que são empresas familiares? Definições, exemplos e boas práticas

Acompanhando avanços tecnológicos e mudanças comportamentais, as empresas familiares existem há séculos. A japonesa Takenaka Corporation, por exemplo, é o negócio familiar mais antigo mapeado pelo Índice EY, presente no mercado há mais de 400 anos.

Conhecidas principalmente por sua resiliência e poder de adaptação, quando bem administradas, alcançam a longevidade que todo empreendedor deseja para o seu negócio. O caminho, no entanto, pode ser repleto de desafios internos e externos.

Entre os 500 maiores negócios familiares do mundo, de acordo com levantamento de 2021 da EY e da University of St. Gallen, o topo da lista é ocupado pelos Estados Unidos (119 empresas que geram uma receita combinada de US$ 2,5 trilhões e empregam 6,4 milhões de pessoas), mas nos anos 1990, dos 300 maiores grupos privados do Brasil , 287 eram familiares – incluindo nomes como Bradesco, Itaú e Grupo Votorantim.

A tendência continua forte até hoje, e essas empresas movimentam bilhões no país.

Ainda de acordo com o mesmo levantamento da EY com a University of St. Gallen, as 500 maiores companhias familiares do mundo faturam cerca de US$7,28 trilhões e empregam aproximadamente 24,1 milhões de pessoas por ano – números difíceis de ignorar. 

Apesar de colecionarem resultados expressivos, esse modelo de negócio tem suas particularidades.

Além de enfrentar cenários econômicos e sociais distintos ao longo do tempo, é preciso que haja um alinhamento do núcleo familiar com os objetivos da companhia a longo prazo, principalmente quando a primeira geração deixa de atuar ativamente. Caso contrário, dificilmente o negócio se manterá competitivo. 

Mas antes de compreender melhor os principais desafios de uma companhia familiar, vamos compreender o que constitui esse modelo de negócio.

O que são empresas familiares?

Embora não haja uma definição única, podemos considerar como empresas familiares aqueles negócios que possuem sua origem vinculada a uma família, em geral a partir da segunda geração.

Mesmo quando há outros stakeholders ou acionistas envolvidos, se uma porcentagem maior da empresa é da família que originou o negócio, ainda podemos considerá-lo uma companhia familiar.

Em outras palavras, são negócios cujas relações familiares estão presentes e interferem diretamente em seu funcionamento.

Inclusive, uma curiosidade: tamanha é a incerteza em relação a um consenso sobre a definição de negócios familiares que uma dissertação de mestrado de Daniela Pedroso Campos, da Faculdade Novos Horizontes (2012), reuniu uma série de exemplos de características e definições, como os seguintes:

  • Está sob o controle do empresário que a criou;
  • Tem sua origem vinculada a uma família;
  • Mantém membros da família na administração dos negócios;
  • A propriedade é exercida por uma (ou por mais de uma) família;
  • Passa por processo sucessório familiar (entre gerações);
  • As relações familiares estão presentes e interferem em sua dinâmica;
  • A segunda geração é o início de uma empresa familiar;
  • O relacionamento familiar determina a sucessão, os valores institucionais da empresa, a imagem da empresa e a “obrigatoriedade” da posse de ações da empresa.

Exemplos de empresas familiares

Diferente do que muitos imaginam, uma empresa familiar não é somente um negócio que atua em uma pequena comunidade. O Walmart, a Samsung e a Porsche, por exemplo, são empresas familiares. O Walmart, considerado a maior rede de varejo do mundo, contabilizou uma receita global de US$ 572 bilhões em 2022, de acordo com dados do Statista.

Em solo nacional, companhias como Pão de Açúcar, Grupo Votorantim e Organizações Globo são familiares e, ainda de acordo com o índice da EY e citado em um artigo da Bloomberg Línea, a JBS é a maior empresa familiar do Brasil.

Na lista também aparecem nomes como Magazine Luiza, Porto Seguro e Gerdau. Ao todo, as 10 maiores empresas familiares brasileiras faturam mais de US$ 101 bilhões:

as 10 maiores empresas familiares do Brasil
(Na imagem: os 10 maiores grupos familiares brasileiros)
(Créditos:Bloomberg Linea)

Uma pesquisa da KPMG que se propôs a entender melhor sobre o perfil das companhias familiares do país descobriu que a maior parte atuava no setor de serviços (25%), seguido por bens de consumo (24%), bens industriais (18%) e agronegócio (14%)

Além disso, 69% das empresas pesquisadas apresentaram um faturamento anual de R$1oo milhões, e de acordo com critérios de classificação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), 42% são de grande porte, o que reforça que negócios familiares são expressivos e fundamentais para o país. 

O estudo também reuniu importantes insights sobre gerenciamento. A pesquisa indicou que grande parte desses negócios tem a tendência de manter o controle e poder de decisão entre os membros da família, “mostrando pouco interesse em admitir novos parceiros, formar alianças com terceiros ou promover mudanças estratégicas”.

A centralização é tamanha que acabou se tornando um grande traço dessas companhias, influenciando diretamente os rumos do negócio, o que levou o estudo a uma conclusão que pode conter uma série de riscos: 

“Os negócios familiares de hoje continuarão a ser negócios familiares no futuro.”

KPMG 

Em um mundo em constante transformação, permanecer com a mesma mentalidade pode rapidamente se converter em uma desvantagem, ainda mais levando em consideração que o desejo é perpetuar o negócio. Lembre-se, o que te trouxe até aqui dificilmente te levará adiante.

Boas práticas em empresas familiares ajudam o negócio a evoluir

Investir na elaboração de boas práticas é fundamental para que qualquer empresa consiga crescer de maneira estratégica e sustentável, e quando falamos das que são familiares, isso é ainda mais importante, uma vez que a maioria luta para se manter competitiva após processos sucessórios – uma grande dor para esse tipo de negócio.

Após o afastamento da 1ª geração, problemas sucessórios passam a ocupar um espaço central na operação, gerando conflitos que afetam diretamente o negócio. 

Embora uma recente pesquisa da PwC tenha apontado que novos líderes brasileiros desejam focar no crescimento da empresa que herdou, apenas 24% da geração atual no Brasil disseram ter um plano de sucessão robusto. Em âmbito global o percentual continua baixo – apenas 30%. 

Para evitar divergências e resistir às mudanças que o próprio tempo exige, estabelecer boas práticas é fundamental: 

#1 – Tudo começa com um bom processo de sucessão

Em um negócio familiar, a instituição familiar é a base que sustenta a operação, e seus membros são responsáveis por perpetuá-la. Sem um sistema eficaz que ordene os processos e as relações, o vínculo pessoal pode gerar conflitos que culminam em um processo sucessório desfavorável – isso quando ele existe.

Segundo uma pesquisa de 2018 da PwC, 44% das empresas familiares não tinham um plano de sucessão e 72,4% não apresentavam uma sucessão definida para cargos-chave como diretoria, presidência, gerência e gestão.

Portanto, para que um negócio familiar sobreviva, é necessário que cada nova geração tenha espaço e as ferramentas necessárias para encontrar o seu próprio jeito de funcionar, e isso só é possível através de um bom processo sucessório.

#2 – Defina diretrizes e documente os processos

Com motivos que vão desde conflitos de interesse até disputas pela herança, mesmo entre as empresas que conseguem implementar alguma mudança, 75% fecham as portas em decorrência de sucessões malfeitas.

Como abordado no tópico anterior, a família é um elemento central da estrutura do negócio, e quanto maior o vínculo, maior a necessidade de definir diretrizes e documentar processos, evitando que eventuais desavenças dominem a empresa.

Portanto, definir responsabilidades, especificar informações sobre o negócio e elencar critérios para tomadas de decisões executivas que afetem a empresa são processos que devem ser deliberados e escritos, mesmo que de forma simples.

Documentar diretrizes, além de comunicar claramente como todos contribuem para a companhia, alinha expectativas e previne que conflitos futuros coloquem a empresa em risco. 

#3 – Investir em desenvolvimento é essencial

A longevidade das companhias familiares está justamente em sua característica multigeracional. Assim, promover o interesse da geração subsequente é um movimento fundamental para esses negócios. 

Além do foco no desenvolvimento de habilidades de liderança, gestão e afins, é preciso garantir que haja equilíbrio entre orientação e autonomia, ou seja, é necessário garantir que essas novas lideranças possam florescer levando em consideração o que o negócio precisa enquanto aprimoram seu próprio repertório.

Nesse sentido, é fundamental despertar um senso de legado. Se desde o começo a nova geração for ensinada a considerar essa herança como uma maneira de perpetuar o impacto positivo do negócio e não como uma fonte financeira, mais chances existem do processo sucessório ser bem-sucedido.

Evitar o efeito dunning-kruger é uma maneira de manter a curva de aprendizado em constante crescimento. 

#4 – Aplique uma remuneração justa

A remuneração é importante para qualquer negócio, e para os que são familiares isso merece ainda mais atenção. Garantir políticas salariais justas, de modo que familiares sejam remunerados de acordo com diretrizes pré-estabelecidas e que são aplicadas aos demais colaboradores, sem distinção, é fundamental para garantir a saudabilidade do negócio a médio e longo prazo. 

Tal medida garante que a empresa mantenha compromissos de transparência e equidade, o que assegura que independente do grau de parentesco, a remuneração será husta de acordo com as contribuições.

Além de evitar conflitos entre os membros da família, os funcionários se sentem mais respeitados e valorizados, o que pode contribuir diretamente com o engajamento e a retenção de talentos

#5 – Não deixe a profissionalização do negócio para depois

Muitos empreendedores sabem que gerenciar um negócio não é fácil. No entanto, gerenciar um negócio familiar pode ser ainda mais complicado. Afinal, lidar com expectativas dos familiares, solucionar eventuais conflitos sucessórios e separar o profissional do pessoal adiciona níveis de dificuldade ainda maiores. 

Muitas vezes, por envolver membros da família, é comum que grande parte das empresas postergue conversas difíceis, mas que são necessárias, fazendo com que muitos problemas se acumulem.

Quando enfim decidem buscar por soluções, podem se deparar com um colapso iminente: os riscos já se tornaram crises. Para que isso não aconteça, o ideal é profissionalizar o negócio desde cedo. Profissionalizar a diretoria aumenta a capacidade de decisão, apresentando novas perspectivas e soluções.

#6 – Foque na governança

Uma vez que o nível estratégico está em harmonia, adotando práticas que beneficiam o negócio, é mais fácil buscar uma estrutura que funcione. Afinal, é normal que à medida que a empresa cresce, a complexidade e os riscos envolvidos também aumentem.

A profissionalização da liderança ajuda a manter a estruturação da governança como uma prioridade, além de manter todos mais preparados para enfrentar mudanças.

Responsável por sistematizar a maneira como as empresas são administradas, muitas companhias focam apenas na governança corporativa – referente ao poder e controle. 

Embora ela seja importante, principalmente em um processo sucessório, a governança familiar e proprietária/societária – que focam no senso de pertencimento e união e na proteção do patrimônio respectivamente – são essenciais para fundamentar um negócio familiar. 

Uma vez que esses três eixos estão alinhados, a empresa dispõe de um know-how maior para tomar diferentes decisões, independente dos desafios enfrentados.

Empresas familiares: boas práticas e governança fortalecem a longevidade

De grandes corporações multigeracionais a lojas locais, é certo que negócios familiares contribuem para a saúde da economia global. Apesar disso, existem muitas dúvidas sobre seu funcionamento e o segredo por trás daqueles que atuam há séculos.

O impacto desses negócios é tanto que, ainda de acordo com o levantamento da EY e da University of St. Gallen, se as empresas familiares fossem um país, ficariam atrás somente dos Estados Unidos e da China em contribuição econômica, angariando a 3º posição global, e consolidando-se como uma verdadeira potência.

Portanto, embora empresas familiares possam ser de pequeno e médio porte, não se restringem a essa característica – pelo contrário, movimentam mercados bilionários.

Sem dúvidas, uma transição geracional capaz de abordar a governança de maneira completa tende a aumentar a capacidade de empresas familiares se perpetuarem, encontrando oportunidades que as mantém relevantes.

Entender o conceito e as principais características desse modelo de negócio é fundamental. Afinal, o volume de empresas familiares é expressivo. Manter o legado significa continuar contribuindo econômica e socialmente para um futuro mais próspero.

Se você é membro da 1ª, 2ª ou 3ª geração de uma empresa familiar, seja C-Level ou não, e quer aprender o que precisa saber para uma sucessão saudável e tranquila, minimizando os riscos de problemas societários, corporativos e familiares, conheça a Imersão G4 Empresas Familiares e aprenda, na prática, como os grandes negócios cresceram através de sucessões.

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*Créditos da imagem destacada: Time Toast

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