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Como o trabalho 100% remoto aumenta os silos dentro da organização

A pandemia causou uma rápida mudança do trabalho presencial ao trabalho 100% remoto para muitos trabalhadores. 

Antes do COVID-19, mais ou menos 17% dos trabalhadores americanos trabalhavam desde casa por pelo menos 5 dias na semana. Em contrapartida, em abril de 2020, 44% desses trabalhadores estavam trabalhando de forma 100% remota, trocando o escritório físico por home office

Como a pandemia mudou as tendências de trabalho nos EUA
(Na imagem: mudanças nas tendências de trabalho nos Estados Unidos em 2020 por conta da pandemia)
(Crédito: Statista)

Muitas empresas de tecnologia como Twitter, Facebook, Square, Box, Slack, Quota e LinkedIn decidiram dar um passo mais à frente e anunciaram que esse trabalho remoto se prolongaria por muito mais tempo e, em alguns casos, que ele seria permanente para alguns trabalhadores mesmo após o término da pandemia. 

No entanto, do mesmo jeito que a pandemia acelerou essa mudança do tradicional e praticamente 100% presencial ao híbrido ou 100% remoto, ainda existe um grande debate de como as empresas, sobretudo as maiores e mais tradicionais, agirão após a situação com o COVID-19 ficar mais controlada. 

Ainda assim, até mesmo empresas que já afirmaram que não permanecerão 100% remotas após o término da pandemia afirmaram que não irão manter as políticas de trabalho prévias ao COVID-19. Assim como outras, essas entidades possivelmente adotem –ou sigam adotando– um modelo híbrido. 

Para estabelecer decisões a longo prazo em relação a trabalho 100% remoto, ou até mesmo híbrido, é necessário entender como essas circunstâncias impactam e impactarão no serviço prestado por esses trabalhadores. 

O antes e o depois: visão geral (trabalhadores vs. organizações)

Em informação trazida pela Nature, um estudo prévio mostrou que a topologia de rede, incluindo a força dos laços, tem um papel fundamental tanto no sucesso de indivíduos como de empresas. 

No caso das pessoas, é o benefício de ter um acesso a informações novas e não-redundantes por meio de conexões com diferentes partes do organograma formal de uma organização e por meio de conexões com diferentes partes da rede de comunicação informal de uma organização.

De acordo com Florian Bartunek, fundador da gestora de fundos Constellation e um dos maiores ícones do mercado financeiro, grande parte do seu aprendizado veio através de “coffee breaks” ou conversas nos corredores de empresas onde trabalhou. Bartunek diz que ele absorveu diversas informações importantes por simplesmente estar sentado e escutar conversas entre André Jakurski e Paulo Guedes, no inicio do BTG Pactual.

Fundador e CIO da Constallation, Florian Bartunek
(Na imagem: Florian Bartunek, fundador e CIO da Constellation)
(Crédito: Exame Invest)

Para as organizações, certas configurações de rede estão associadas com a produção de resultados criativos de alta qualidade, além de existir uma vantagem competitiva ao implementar com sucesso a prática de “transferência de conhecimento”, na qual certo grupo de pessoas dentro da organização compartilham suas experiências para que outro grupo dentro da mesma empresa os absorva e os coloque em prática.

Na prática, a eficácia dessa transferência depende muito da força dos laços entre as pessoas. 

Efeitos do trabalho remoto em redes de colaboração

Em análise conduzida com 61.182 trabalhadores da Microsoft durante os primeiros seis meses de 2020, a mudança para o trabalho 100% remoto fez com que grupos de negócio se tornassem menos interconectados, reduziu o número de laços estruturais na rede de colaboração informal e fez com que os indivíduos gastassem menos tempo colaborando com os laços de conexão que permaneceram.

Dos vínculos agregados que observamos em junho de 2020, 40% existiram em pelo menos um mês entre janeiro de 2020 e maio de 2020, enquanto os 60% restantes não.

Em contrapartida, essa mudança fez com que os trabalhadores utilizassem uma maior porcentagem do seu tempo colaborativo com seus laços mais fortes –o que facilita a transferência de informação– e menos com seus laços mais fracos, reduzindo assim as chances de exposição a novas informações. 

As vantagens dos diferentes tipos de laços não variam só por conta da idade desses trabalhadores, mas também quando esses trabalhadores mudam sua posição dentro da empresa, adicionando novos laços e, quiçá, reconectando com laços dormentes. Ao transformar essa colaboração entre trabalhadores mais estática, o trabalho totalmente remoto talvez tenha reduzido esses benefícios.

Esses resultados também sugerem que o trabalho remoto em toda a empresa fez com que a rede de colaboração se tornasse mais isolada, tanto no sentido formal quanto no informal, podendo diminuir a possibilidade de produzir resultados criativos de qualidade e soluções inovadoras.

Efeitos do trabalho remoto em redes de colaboração
(Na imagem: efeitos do trabalho 100% remoto na colaboração entre trabalhadores)
(Crédito: Nature)

Os efeitos do trabalho remoto no uso dos meios de comunicação

A mesma análise mostrou que houve aumentos consideráveis relacionados a duração de chamadas não programadas, duração de reuniões, total de horas em vídeo/áudio e números relacionados a mensagens instantâneas (MIs) enviadas (WhatsApp, Messenger, Slack etc.)

O trabalho 100% remoto dentro da empresa diminuiu a quantidade de reuniões programadas e aumentou o tempo utilizado em reuniões não programadas em vídeo/áudio.  

Dado que, por definição, uma mudança tão drástica faz com que interações pessoais caiam para praticamente zero e a comunicação de vídeo/áudio síncrona, em geral, diminua, a análise também indicou que o trabalho remoto em toda a empresa levou a uma diminuição no valor total de colaboração síncrona, tanto pessoalmente quanto por meio do Microsoft Teams. 

Em contrapartida, a mudança causou um aumento na quantidade de comunicação assíncrona. O trabalho 100% remoto aumentou o número de e-mails enviados pelos trabalhadores e o número de MIs enviados pelos trabalhadores. 

Uso de meios de comunicação: como foram afetados pelo trabalho 100% remoto
(Na imagem: efeitos do trabalho 100% remoto no uso de meios de comunicação)
(Crédito: Nature)

Além disso, o trabalho 100% remoto aumentou o número médio de horas semanais de trabalho, tornando mais notável o efeito negativo do trabalho remoto em toda a empresa na colaboração síncrona. 

Esse aumento talvez aponte uma menor produtividade entre os funcionários, tomando assim mais tempo para concluir seu trabalho, ou que substituíram parte do tempo que gastavam em deslocamento pelo tempo de trabalho. No entanto, também pode ser que esse aumento de horas se deva a pausas ou interrupções por atividades não relacionadas ao trabalho. 

As principais distrações durante o trabalho remoto em casa
(Na imagem: principais distrações durante o trabalho remoto em casa, as principais sendo redes sociais, celular, binge-watching (séries, filmes e/ou TV) e filhos)
(Crédito: Statista)

Futuro: trabalho 100% remoto ou híbrido

“Na minha opinião, sem dúvida alguma é possível tocar uma operação de forma remota por um determinado período, entretanto, o resultado não é o mesmo do que no trabalho presencial. É muito difícil criar e fortalecer a cultura de uma companhia com as pessoas trabalhando a distância”

Tallis Gomes
Fundador da Easy Taxi, Singu e G4 Educação

No dia 21 de setembro, foi divulgado que o Google pagou US$2,1 bilhões pelo edifício St. John’s Terminal na Hudson Square em Manhattan, Nova York. De acordo com o CFO da Alphabet e Google, Ruth Porat, a compra é um aprimoramento de uma “abordagem híbrida mais flexível para trabalhar”, facilitando que os funcionários se reúnam pessoalmente para seguir colaborando e construindo uma comunidade. 

Primeira imagem da transformação que a Google realizará na St John's Terminal
(Na imagem: first look de como será a transformação do St. John’s Terminal pela Google)
(Crédito: Real State Weekly / Oxford Properties Group)

Outros gigantes de tecnologia, como Amazon e Facebook, assim como Google, vem demonstrando que não pretendem seguir com o trabalho 100% remoto. A Amazon vem gastando US$2,5 bilhões em um complexo de escritórios + varejo, além de ter alugado 6 novos edifícios nos Estados Unidos. No caso do Facebook, foram mais de 2 milhões de metros quadrados alugados, também na cidade de Nova York. 

De fato, muitas das Big Techs já estabeleceram quando voltariam aos escritórios, sendos todas, de momento, optando pelo modelo híbrido. Seguindo a mesma lógica estabelecida no começo do texto, e que complementada pelo exemplo de Florian Bartunek, as Big Techs entendem que a transferência de conhecimento e a criação e fortalecimento de laços entre seus funcionários são essenciais para o crescimento da empresa no longo prazo, e esses benefícios que só são possíveis presencialmente. 

(Na imagem: data de quando algumas das Big Techs voltarão ao presencial)
OBS: datas sujeitas a modificação devido ao controle da pandemia os Estados Unidos

Conclusão

A mudança para o trabalho remoto em toda a empresa fez com que a rede de colaboração se tornasse mais isolada e que esses silos se tornassem mais densamente conectados. Além disso, a rede ficou mais estática, com menos laços adicionados a cada mês. 

Além disso, a mudança para o trabalho 100% remoto em toda a empresa fez com que a comunicação síncrona diminuísse e a comunicação assíncrona aumentasse. 

Olhando para o futuro, essas descobertas sugerem que as políticas de trabalho remoto, como, por exemplo, o trabalho híbrido, podem ter efeitos substanciais não apenas sobre aqueles que trabalham remotamente, mas também sobre aqueles que permanecem no escritório. Neste caso, é importante analisar qual a frequência que mais favorecerá a produtividade da sua empresa, criando assim uma flexibilidade entre o trabalho presencial tradicional e o trabalho remoto. 

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